terremoto de gênero: as mulheres socialistas e a comuna de paris (II)

Texto originalmente publicado na revista International Socialism. Tradução de Giovanna Marcelino.
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Judy Cox

Como as mulheres deram forma a Comuna

Para explorar como as mulheres deram forma à Comuna, irei examinar quatro áreas principais: o trabalho feminino; a educação das mulheres; as tentativas das mulheres de espalhar a revolução; e a atitude das mulheres em relação ao seu novo Estado.

Trabalho feminino

A Comuna deu trabalho às mulheres. Lissagaray observou 1.500 mulheres costurando sacos de areia para as barricadas, enquanto outras 3.000 trabalhavam na fabricação de cartuchos.[1] Benoît Malon e Leó Frankel eram ambos membros da Internacional e também responsáveis pela Comissão para o Trabalho. Eles acreditavam que a comissão era o mecanismo mais importante para implementar uma mudança social duradoura.[2] Frankel explicou:

“O povo criou seu organismo político como meio de realizar o próprio objetivo da revolução, que é a emancipação do trabalho, a abolição dos monopólios, dos privilégios, da burocracia, do feudalismo especulativo, capitalista e industrial”.[3]

A Comissão para o Trabalho foi formada, e era absolutamente dependente, da União das Mulheres.[4] Em 16 de abril, o Conselho Comunal decretou que as oficinas dos proprietários, que haviam fugido para Versalhes, seriam transferidas para a “associação cooperativa dos trabalhadores que trabalhavam nelas”.[5] Dimitrieff acreditava que assumir as oficinas era uma forma de transformar o trabalho, introduzir salários iguais, jornadas de trabalho menores, e dar fim a competição entre mulheres e homens. Frankel e Malon elaboraram um plano para o trabalho das mulheres e colocaram Dimitrieff no comando. Ela imaginava as oficinas como associações livres de trabalhadores, trabalhando para seu lucro coletivo:

“Tirando o trabalho da escravidão da exploração capitalista, a formação dessas organizações iria eventualmente permitir que os trabalhadores gerissem seus próprios negócios”.[6]

A classe trabalhadora ainda não era poderosa o suficiente para organizar a produção coletivamente por meio de conselhos de trabalhadores. No entanto, Dimitrieff, Frankel e Malon tentaram separar o trabalho da exploração pelos proprietários das oficinas e, em vez disso, direcioná-lo de acordo com as necessidades dos consumidores e dos produtores.

Educação para a emancipação

André Léo, Paule Mink, Louise Michel e Noémi e Élie Reclus desenvolveram suas ideias sobre a educação das mulheres na década de 1860. A Comuna lhes ofereceu a oportunidade de colocar suas ideias em prática. O Comitê de Educação da Comuna incluiu aquelas veteranas da organização de mulheres da década de 1860, bem como Jaclard e Dimitrieff. O Comitê não era um meio moderado pelo qual as mulheres poderiam estender seu tradicional papel doméstico à esfera pública. Ele era uma ferramenta para empoderar as mulheres e capacitá-las a participar da Comuna ao mesmo tempo que subvertia os estereótipos de gênero.[7] Apesar dos meios extremamente limitados à sua disposição, a Comuna priorizou a introdução da educação para meninas. O jornal radical Le Père Duchêne explicava o por quê:

“Se vocês, cidadãos, ao menos percebessem o quanto a revolução depende das mulheres, vocês teriam seus olhos abertos para a educação de meninas. Vocês não as deixariam como tem sido feito até agora na ignorância!”.[8]

Para muitos, a educação para meninas significava uma questão de igualdade e de reformar a natureza humana para uma futura sociedade socialista.

A educação tornava-se livre e secular. Isso significou a expulsão de freiras e padres e o recrutamento de mais professores, com professoras recebendo salários iguais. A Comissão elaborou planos para estabelecer creches. O engajamento parental e comunitário foi outra prioridade. Duas vezes por semana, a Sociedade para uma Nova Educação, que era composta por três mulheres e três homens, reunia professores e pais para discutir o currículo e os métodos usados nas escolas.[9] O comitê deu uma abordagem radical à educação: “qualquer direção oficial que seja imposta ao julgamento dos alunos é fatal e deve ser condenada … tende a destruir a individualidade”.[10] As mulheres não apenas se reuniam nos comitês. Mink abriu uma escola para meninas na capela de Saint-Pierre de Montmartre. Marcelle Tinayre, que foi a primeira inspetora escolar do sexo feminino na França, se encarregou do processo de secularização na 12ª área administrativa de Paris.

Propagando a revolução

Os communards entendiam que a Comuna de Paris não poderia sobreviver se permanecesse isolada do resto do país. Depois que insurreições iniciais em outras cidades grandes foram esmagadas, o apoio prático e político dos pequenos agricultores ao redor de Paris tornou-se vital para abastecer a cidade. As mulheres estavam na vanguarda no processo para alcançar o campesinato. Léo foi em grande parte responsável por escrever um manifesto para os trabalhadores rurais, Aos trabalhadores do campo, embora Malon também tenha contribuído para isso. Cerca de 100.000 cópias foram impressas. “O que Paris quer é terra para os camponeses, ferramentas para os trabalhadores e trabalho por e para todos”, argumentou Léo.[11] O que importa, ela continuou, se o opressor é chamado de proprietário de terras ou fabricante?. O panfleto apontou que “se Paris cair, o jugo da pobreza permanecerá no seu pescoço e passará para seus filhos”.[12] Léo propôs maneiras pelas quais a capital pudesse alcançar o resto do país e Mink visitou as províncias levantando apoio.[13] Léo e Mink estavam inteiramente certos em direcionar seus esforços para ganhar apoio fora de Paris. Marx argumentou que foi o isolamento da comunidade do campo que provou ser fatal. Nenhum relatório da imprensa atingiu as pequenas aldeias. Sem a comunicação dos communards, seus habitantes não tiveram chance de ver que a Comuna representava seus “interesses vivos” e “vontades reais”.[14]

Dimitrieff também insistia que o Conselho Geral aumentasse seus esforços para sair do isolamento, mas lançava seu olhar para outras nações européias em vez do campo. Ela entendia que as forças militares estavam reagrupando em Versalhes, mas acreditava que, se a Comuna conseguisse aprofundar seus esforços na reforma, também aprofundaria seu apoio internacional: “Se a comunidade for vitoriosa, nossa organização política será transformada em organização social, e vamos criar novas seções da International”.[15] Dimitrieff escreveu de forma otimista para Marx, destacando como a revolta poderia se espalhar pela Europa:

“Em geral, a propagação internacionalista que estou fazendo aqui, a fim de mostrar que todos os países, inclusive a Alemanha, encontram-se na véspera da Revolução Social, é uma proposta muito agradável às mulheres”.[16]

Segundo Dimitrieff, as mulheres estavam particularmente sintonizadas com a ideia de que a revolução deveria se espalhar para outros países tal como a Alemanha. Sua estratégia não teve a oportunidade de se tornar realidade.

Terminando a revolução

A Comuna substituiu o exército e a polícia pela Guarda Nacional. Muitos radicais, incluindo várias mulheres, queriam usar essa ala revolucionária do Estado dos trabalhadores para derrubar o governo em Versalhes. No entanto, Dimitrieff foi uma das poucas marxistas na liderança da Comuna. Assim, as discussões sobre marchar ou não em Versalhes ocorreram entre os proudhonistas que, como anarquistas, não acreditavam em ação política, e os jacobinos, que vinham de uma tradição política de classe média. Os blanquistas eram o principal grupo a defender a marcha em Versalhes, mas eram pequenos demais para conquistar um apoio amplo. Em 2 de abril, Versalhes realizou um ataque a um subúrbio parisiense. As mulheres ajudaram a construir novas barricadas e decidiram liderar uma ação própria, lançando um apelo em vários jornais:

“Vamos para Versalhes. Vamos dizer a Versalhes o que é a revolução de Paris. Vamos dizer a Versailles que Paris fez a Comuna porque queremos ser livres. Vamos dizer a Versailles que Paris se preparou para se defender porque as pessoas tentaram tomá-la de surpresa e desarmá-la. Vamos dizer a Versalhes que a Assembléia não é a lei, Paris é”.[17]

Beatrix Exchoffon, conhecida em seu distrito como “A Republicana”, descreveu a reunião no dia seguinte:

“Eu disse à minha mãe que eu estava saindo, beijei meus filhos e fui. Na Place de la Concorde, à uma e meia, juntei-me à procissão. Havia entre 700 e 800 mulheres. Algumas falavam sobre explicar a Versalhes o que Paris queria; outras falavam sobre como as coisas eram cem anos atrás, quando as mulheres de Paris já haviam ido para Versalhes para eliminar o padeiro e a esposa do padeiro e o menino do padeiro”.[18]

“O padeiro e a esposa do padeiro e o menino do padeiro” é uma referência à marcha de mulheres em Versalhes que ocorreu em 1789. Naquela época, uma multidão faminta de mulheres e homens cercaram o Palácio de Versalhes e capturaram o Rei Luís XVI e sua família. Muitas communardes invocaram essa tradição militante revolucionária do ativismo das mulheres enraizada na Grande Revolução Francesa. No entanto, ao contrário de 1789, as marchas de mulheres de 1871 foram resguardadas pela Guarda Nacional, que temia que as mulheres fossem baleadas por tropas do governo.

Louise Michel foi uma das mais ardentes apoiadoras de um ataque militar ao governo. Ela até se voluntariou para ir a Versalhes para assassinar Adolphe Thines. Ela lutou tão bravamente que o 61º Batalhão deu a ela um rifle Remington e, ao recebê-lo, ela declarou: “Agora estamos lutando. Essa é uma batalha. Há uma revolta, em que eu corro à frente gritando ‘Para Versalhes! Para Versalhes!'”.[19] Michel instintivamente sabia que, se o governo em Versalhes não fosse esmagado, seriam incessantes seus esforços para derrubar a Comuna.

Após a derrota da Comuna, Paule Mink argumentou que a minoria moderada no Conselho Central não tinha coragem de dar um golpe fatal contra o governo. Diante da supressão brutal da Comuna, Mink concluiu que a revolução centralizada e organizada era a estratégia certa para chegar ao socialismo. Lenin explorou a experiência da Comuna em seu Estado e Revolução (1917) e levantou a mesma crítica que Mink. Ele escreveu que as revoluções devem:

“Reprimir a burguesia e esmagar sua resistência. Isso foi particularmente necessário para a Comuna; e uma das causas de sua derrota reside em que ela não o fez com determinação suficiente. Mas o órgão de repressão é aqui já a maioria da população, e não uma minoria, como sempre foi o caso na escravidão, na servidão e na escravidão assalariada”.[20]

Michel, Mink e Lenin fizeram observações semelhantes. A Comuna criou um novo tipo de Estado, com base no engajamento da maioria, mas não conseguiu dirigir seu poder contra a antiga ordem, que nunca pararia de buscar meios para destruir qualquer esperança de uma sociedade diferente.

As mulheres nas barricadas

Em 21 de maio, as tropas enviadas de Versalhes entraram em Paris e toda a população foi convocada para as barricadas. Todas as considerações contemporâneas sobre os últimos dias da Comuna prestam homenagem à coragem das mulheres, tendo em vista que elas construíram barricadas, cuidaram dos feridos, forneceram alimentos e bebidas à Guarda Nacional e lutaram ao lado de homens. Não houve grande separação entre cuidar e lutar. Louise Michel descreveu como as mulheres responderam ao chamado para se voluntariarem para tratar dos feridos e muitas vezes assumirem seus rifles.[21] André Léo notou que os oficiais eram hostis com as enfermeiras, mas as tropas comuns as recebiam bem.[22] A União das Mulheres se reuniu no mesmo dia em que as tropas do governo entraram em Paris. Nathalie Lemel, com bandeira vermelha na mão, levou as mulheres para a barricada em Batignolles. Elisabeth Dimitrieff incitou todas as mulheres devotas e patriotas a organizar a defesa dos feridos. Anna Jaclard e André Léo emitiram um apelo de seu comitê de vigilância para as mulheres de Montmartre, pedindo a elas que apoiassem uma convocação da Comuna: “As mulheres de Montmartre, inspiradas pelo espírito revolucionário, desejam atestar por meio de suas ações sua devoção à revolução”.[23] As mulheres agiram como enfermeiras ambulantes sob o tiroteio e muitas foram capturadas, estupradas, baleadas e mortas pelas tropas do governo.

Lutar era um ato revolucionário, e é por isso que, como Edith Thomas apontou, as mesmas mulheres que participavam dos clubes políticos também eram aquelas que subiam às barricadas. O governo francês usou uma força brutal para esmagar a Comuna, tendo cerca de 20.000 homens, mulheres e crianças executadas durante o que ficou conhecido como “Semana Sangrenta”. As mulheres estavam envolvidas em todos os compromissos militares durante a Semana Sangrenta e muitas foram listadas entre os feridos e mortos. Um dos nomes da lista foi o de Blanche Lefebvre, uma lavanderia da Sainte-Marie des Batignolles. Ela era membra do Clube da Revolução Social, que foi criado no dia 3 de maio na igreja local. Lefebvre também foi membra do Comitê Central da União das Mulheres.[24] Ela foi uma das 120 mulheres que realizou a barricada na Place Blanche por várias horas até ficarem sem munição e serem invadidas. Aqueles capturados na barricada eram baleados no local. Lefebvre foi uma delas. Ela tinha apenas 24 anos.

O mito das incendiárias[25]

Levou sete longos dias de bombardeio, combate corpo-a-corpo e execuções em massa para as tropas do governo retomarem Paris. Sua vingança sobre as mulheres foi particularmente dura. As mulheres foram sistematicamente humilhadas, despidas, estupradas e assassinadas por tropas do governo.[26] Malon atribuiu a ferocidade das tropas às lições aprendidas pelo exército francês em sua subjugação colonial da África do Norte.[27] Communardes foram baleadas no local em que eram capturadas, mas todas as mulheres da classe trabalhadora estavam sob suspeita. As mulheres da Comuna foram consideradas como “assexuadas”. O The Times publicou que as mulheres se esqueceram de “seu sexo e de sua gentileza para cometer assassinatos, para envenenar soldados, para queimar e matar”.[28] Opositores chamaram as communardes de más, amazonas, raivosas, chacais. O Pall Mall Gazette descreveu as communardes como “viragos hediondas – raivosas intoxicadas com fumos de vinho e sangue”.[29] As mulheres ricas da alta sociedade faziam fila para abusar das prisioneiras e batiam nelas com seus guarda-sóis enquantoeram arrastadas a caminho da prisão.[30] O mito da pétroleuse, mulheres que queimavam edifícios, começou a circular, justificando a repressão por meio da desumanização de suas vítimas. Apesar do mito, das 1.051 mulheres que foram presas durante a Semana Sangrenta, apenas cinco foram condenadas por incêndio culposo.[31] Historiadores, pesquisando em arquivos no Ministério da Guerra francês, encontraram, entre os registros de prisões, julgamentos e apelos por clemência, evidências da “forma dramaticamente variada pela qual as mulheres participaram na luta revolucionária de 1871”.[32] Essas mulheres não foram protegidas por seu sexo: o estado as puniu precisamente porque eram mulheres que se recusavam a se submeter à opressão.

Dimitrieff escapou de Paris e enviou um telegrama de Genebra informando à Internacional de sua chegada em segurança.[33] Segundo Lissagaray, Dimtrieff administrou um hotel nas margens do Lago de Genebra, onde cuidou de refugiados da Comuna.[34] Ela então continuou sua militância na Rússia, voltando-se para o terrorismo político, talvez como resultado de sua frustração com a derrota da Comuna. Malon, Léo e Mink também escaparam em direção a Genebra.[35] Victor Jaclard foi preso e transferido para um campo de prisioneiros em Versalhes, mas conseguiu escapar, e ele e Anna também fugiram para Genebra. Outros milhares não tiveram a mesma sorte. Beatrix Exchoffon foi condenada à deportação, embora isso tenha sido comutado em troca de dez anos de prisão. Outras milhares de mulheres trabalhadoras foram sumariamente executadas sem julgamento ou presas simplesmente por expressarem apoio à Comuna, por exemplo, ao permitirem que suas lojas se tornassem locais de reunião.

Suas histórias ilustram as esperanças que a Comuna despertou entre seus defensores e como eles experimentaram mudanças em todos os aspectos de suas vidas. Uma lavadeira chamada Marie Wolff foi uma das processadas. Em 27 de maio, quatro prisioneiros fugitivos que eram apoiadores do governo de Versalhes foram presos. Wolff, que era enfermeira, participou de sua execução. Antes da Comuna, Wolff havia cumprido pena na prisão por furto e roubo. Durante a Comuna, ela carregava uma bandeira vermelha e um cinto que continha armas. Em 25 de abril de 1872, Wolff foi condenada à morte por seu papel na execução dos prisioneiros. Sua sentença foi comutada por trabalho forçado até o final da vida.[36]

Marguerite Tinayre era professora e defensora da Internacional. O marido dela, que era apolítico, foi baleado enquanto procurava por ela. Ela foi condenada à deportação, mas escapou para Genebra e depois para Budapeste com seus cinco filhos. Tinayre foi excluída de uma anistia de 1879 porque ela continuou com suas “intrigas socialistas e internacionalistas”.[37] Ela acabou sendo autorizada a voltar à Paris.

A vingança da classe dominante foi brutal, mas não esmagou o espírito revolucionário das communardes. Eliska Vincent, veterana do grupo feminista de Léo de 1866, quase foi executada por seu papel na Comuna, mas continuou a liderar uma organização pelo sufrágio feminino e editou um jornal, Igualdade.[38] Michel desafiou o tribunal a sentenciar a sua morte. Eles recusaram e a condenaram ao transporte penal. Ela conheceu Lemel na colônia penal da Nova Caledônia no Oceano do Pacífico Sul. Michel retornou à Paris depois de uma anistia total ser declarada em 1880. Ela foi presa em uma mobilização de trabalhadores desempregados, em 1883, e condenada a seis anos de prisão em solitária. Foi presa novamente em 1890, mas escapou para a Inglaterra, onde ela ensinou a crianças refugiadas. Michel retornou para a França e morreu de pneumonia em janeiro de 1905. Mais de 100.000 participaram do seu funeral. Quando a Comuna caiu, Mink estava viajando pelas províncias para ganhar apoio para a Comuna. Ela conseguiu escapar para Genebra com sua filha. Ela nunca parou de organizar a revolução socialista. Quando foi enterrada no 1 de maio de 1901, milhares em luto se juntaram à procissão funeral pelas ruas de Paris, gritando “Viva a Comuna” e “Viva a International”. Mais de 600 policiais, 500 soldados e 100 cavalarias foram chamados para patrulhar as ruas.[39] Seu funeral sublinhou a importância contínua da Comuna na tradição socialista.

Conclusão: agitando e fazendo barulho

Um historiador da Comuna descreve isso como uma “incubadora de socialismos feministas embrionários”.[40] Seria mais preciso dizer que o papel das mulheres na Comuna encorajou mulheres socialistas experientes a alcançar outras mulheres trabalhadoras. Mink escreveu no jornal da International baseado em Genebra, o Igualdade, endereçando às mulheres:

“É em nome das mulheres que falo, em nome das mulheres a quem a Internacional deu os direitos e deveres iguais aos homens… Apenas o socialismo será capaz de emancipar mulheres material e moralmente, como será capaz de emancipar todos aqueles que sofrem!”. [41]

Homens socialistas que apoiaram a emancipação das mulheres também estavam interessados em traçar as lições da Comuna. Em 1871, apenas algumas semanas após a derrota, Malon argumentou que “um fato importante demonstrado pela revolução em Paris é a entrada das mulheres na vida política… As mulheres e o proletariado só podem esperar alcançar sua respectiva libertação unindo-se”.[42] Ao mesmo tempo, Leó Frankel escreveu:

“Todas as objeções produzidas contra a igualdade entre homens e mulheres são do mesmo tipo daquelas que são produzidas contra a emancipação da raça negra. Em primeiro lugar, as pessoas são cegas e lhes é dito que são cegas desde o nascimento. Ao reivindicar que metade da raça humana é incompetente, o homem se orgulha da aparência de ser o protetor das mulheres. Hipocrisia revoltante! Apenas deixe as barreiras do privilégio serem baixadas e veremos”.[43]

Em 1879, o Congresso Nacional dos Trabalhadores em Marselha marcou uma mudança decisiva na atitude de trabalhadores franceses organizados e de uma “maioria reunida por trás da noção de completa igualdade civil e política”.[44] O movimento foi ardentemente defendido no Congresso por Hubertine Auclert, uma socialista de classe trabalhadora. Ela foi aclamada pelo Congresso, eleita presidente da sessão e da Comissão, e o Congresso adotou uma resolução proclamando a “igualdade absoluta entre os sexos”.[45]

A Comuna de Paris impactou fortemente a família Marx. Marx inicialmente se opôs à revolta parisiense como prematura. No entanto, uma vez que estava em andamento, ele e toda a família se jogaram para apoiá-la. Marx foi vilipendiado como o “doutor vermelho” e o insurrecionista sinistro que instigou a Comuna. Duas das filhas Marx, Eleanor e Jenny  tiveram a sorte de escapar depois de visitar a França em abril de 1871. A derrota levou refugiados a inundarem Londres e muitos encontraram o caminho para a casa da família Marx. Jenny e a terceira irmã Laura se casaram com communards e Eleanor foi por um tempo noiva de Lissagaray, cuja história inestimável na Comuna ela traduziu. A Comuna também deu forma ao movimento socialista internacional e foi comemorada pelo movimento da classe trabalhadora britânica por décadas com celebrações de aniversário, discursos e eventos.

Marx descreveu que a maior conquista dos communards foram as novas formas de organização criadas, a “o trabalho realmente existente” da Comuna.[46] A experiência de 1871 levou a Marx a se distanciar da ideia de que as perspectivas revolucionárias devem ser baseadas no “progresso” capitalista. Em vez disso, ele viu formas não-capitalistas de propriedade comunitária criando aliados potenciais para a classe trabalhadora. A história não progride através de estágios autônomos, mas sim por meio das interações entre cidade e campo, trabalhador e camponês. Apesar de seu final desastroso, a Comuna era um novo ponto de partida de importância histórica mundial. Como Lissagaray escreveu, a Comuna foi “a primeira tentativa do proletariado de governar a si mesmo”.[47] A única alteração que Marx já fez no Manifesto Comunista foi em 1872 quando ele acrescentou a frase: “A classe trabalhadora não pode simplesmente tomar posse da máquina do Estado constituída e colocá-la em movimento para seus próprios obejtivos”. Para Marx, a Comuna mostrou como o Estado opressivo poderia ser quebrado e substituído por um Estado democrático dirigido pela maioria.

Às vésperas da Revolução de Outubro de 1917, Vladimir Lenin delineou a experiência da Comuna. Ele descreveu como a abolição do exército permanente e todos os oficiais sendo eleitos e sujeitos a revogação “significa uma substituição gigantesca de certas instituições por outras instituições de um tipo fundamentalmente diferente: a democracia, introduzida de modo tão pleno e consistente quanto é concebível, converte-se de democracia burguesa à proletária”.[48] Quando ele defendeu os bolcheviques de acusações de que o partido era pequeno demais para governar a Rússia, ele argumentou que:

“Temos uma “forma mágica” de ampliar nossos aparelhos estatais dez vezes, de uma só vez, de uma forma que nenhum estado capitalista jamais possuiu ou poderia possuir. Essa forma mágica é levar os trabalhadores, os pobres, ao trabalho diário de administração do Estado”.[49]

Os communards foram os primeiros a demonstrar essa magia latente dentro da classe trabalhadora.

A análise marxista do Estado está constantemente sob pressão por parte daqueles que argumentam que a ideia de “esmagar o Estado” é antiquada e que muitos serviços estatais, como saúde, educação e bem-estar, devem ser preservados e estendidos em vez de serem demolidos. Os communards não “esmagaram” os correios, os cemitérios ou as escolas; eles assumiram o controle e dirigiram para o benefício da maioria. Como Lenin apontou, a revolução deve “cortar os fios” que amarram os aspectos úteis do Estado aos interesses capitalistas que distorcem e os limitam e às instituições repressivas como a polícia e o exército.

Rosa Luxemburgo se voltou para a Comuna no último artigo que ela escreveu, publicado em janeiro de 1919. Ela descreveu como a Comuna tinha terminado em uma derrota terrível como tantas outras lutas heróicas da classe trabalhadora. Então ela perguntou:

“Onde estaríamos hoje sem aquelas derrotas terríveis, das quais extraímos experiência histórica, conhecimento, poder e idealismo? Nós nos apoiamos nessas derrotas, sem poder prescindir de nenhuma delas, pois cada uma faz parte de nossa força e compreensão”.[50]

A Comuna foi uma revolução da classe trabalhadora que necessariamente também foi um “grande evento de gênero” porque dependeu do envolvimento ativo, da criatividade e da coragem das mulheres.[51] Foi o envolvimento visível de mulheres que tornaram a Comuna tão temível para seus oponentes. Como alguém escreveu:

“Aquelas fêmeas que se dedicaram à Comuna – e havia muitas – tinham uma única ambição: levantar-se acima do nível do homem. Elas estavam todas lá, agitando e gritando, as costureiras dos cavalheiros, as fabricantes de camisa dos cavalheiros, as professoras dos meninos, as empregadas de todos os trabalhos. Durante os últimos dias, todas essas viragos belicosas resistiram mais do que os homens por trás das barricadas”.[52]

Do outro lado do Canal da Mancha, um repórter do The Times se juntou ao insulto, zombando: “Se a nação francesa fosse composta apenas das mulheres francesas que nação terrível seria”.[53] Se as mulheres rebeldes de Paris tivessem no comando de todo o país é concebível que a revolução pudesse ter se espalhado pela Europa. Talvez então, neste breve, mas inspirador evento de poder dos trabalhadores poderia ter ganho mais tempo e, assim, nos proporcionado muitos mais exemplos de como as pessoas da classe trabalhadora podem se organizar juntas para criar uma sociedade socialista.


Judy Cox é professora em uma escola primária em Londres e atualmente pesquisa as atividades de mulheres da classe trabalhadora em movimentos radicais do século XIX. É autora dos livros The Women’s Revolution: Russia 1905-1917 (Haymarket, 2019) e Rebellious Daughters of History (Redwords, 2020).


[1] Lissagaray, 1976, p. 239.
[2] Thomas, 1964, p. 68.
[3] Gluckstein, 2011, p. 17.
[4] Gluckstein, 2011, p. 39.
[5] Gluckstein, 2011, p. 19.
[6] Thomas, 1964, p. 70.
[7] Eichner, 2004, p. 98.
[8] Gluckstein, 2011, p. 27.
[9] Thomas, 1964, p. 96.
[10] Gluckstein, 2011, p. 27.
[11] Ross, 2015, p. 218.
[12] Thomas, 1964, p. 103.
[13] Thomas, 1964, p. 104.
[14] Ross, 2015, p. 215.
[15] McClellan, 1979, p. 152.
[16] Singer-Lecocq, 2011, p. 130.
[17] Thomas, 1964, p. 48.
[18] Thomas, 1964, p. 49.
[19] Thomas, 1964, p. 126.
[20] Lenin, 1917.
[21] Thomas, 1964, p. 113.
[22] Thomas, 1964, p. 118.
[23] Thomas, 1964, p. 114.
[24] Ray, 2012.
[25] [N. T.]: De pétroleuse, mulher que, durante a Comuna, incendiavam edifícios com petróleo.
[26] Gullickson, 1996, p. 181.
[27] Ross, 2015, p. 213.
[28] Gullickson, 1996, p. 178.
[29] McMillan, 2000, p. 135.
[30] Thomas, 1964, p. 136.
[31] McMillan, 2000, p. 135.
[32] Jones and Verges, 1991, p. 495.
[33] McClellan, 1979, p. 153.
[34] Abidor, 2010.
[35] Eichner, 2004, p. 157.
[36] Thomas, 1964, p. 165.
[37] Thomas, 1964, p. 179.
[38] McMillan, 2000, p. 195.
[39] Eichner, 2004, pp. 179-80.
[40] Eichner, 2004, p. 18.
[41] Eichner, 2004, p. 182.
[42] Schulkind, 1985, p. 160.
[43] Schulkind, 1985, p. 137.
[44] McMillan, 2000, p. 116.
[45] Schuklind, 1985, p. 160.
[46] Ross, 2015, p. 35.
[47] Lissagaray, 1976, p. 3.
[48] Lenin, 1917.
[49] Lenin, 1918.
[50] Luxemburg, 1919.
[51] Holmes, 2014, p. 105.
[52] Lissagaray, 1976, p. 419.
[53] Holmes, 2014, p. 106.


Referências

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