o desejo de transformar tudo: as lutas feministas internacionalistas

imagem: Beatriz Rodrigues Sanchez

Resenha de A Potência Feminista ou o desejo de transformar tudo, de Verónica Gago

Beatriz Rodrigues Sanchez

“Se nós paramos, o mundo para”

O livro “A potência feminista ou o desejo de transformar tudo”, de autoria da teórica feminista argentina Verónica Gago, publicado no Brasil pela editora Elefante em março de 2020, apresenta uma visão radicalmente crítica sobre o sistema internacional. A partir das lutas feministas da contemporaneidade, a teoria política desenvolvida pela autora desafia o cânone das Relações Internacionais. Como ela própria define, a potência feminista é uma forma alternativa de poder baseada na mobilização das mulheres contra a expropriação dos corpos e dos territórios. É uma tentativa de imaginar um outro mundo possível e de inventar novas formas de existência.

A obra, assim como o livro “Feminismo para os 99%”, também de autoria de feministas marxistas, possui caráter de manifesto. Uma de suas teses centrais é a ideia de que o feminismo apresenta uma nova perspectiva internacional que não está limitada pelo Estado-nação. Para Gago, os movimentos feministas demonstram que o sistema internacional não deve ser entendido desde uma perspectiva abstrata e homogênea como se os Estados fossem entidades superiores apartadas das realidades concretas de seus habitantes. Pelo contrário, ela argumenta que o internacionalismo é construído a partir dos territórios e dos corpos que os ocupam.

A união desses dois elementos, territórios e corpos, possibilita o surgimento de um novo conceito fundamental para a tese de Gago: o conceito de corpo-território. As lutas feministas contemporâneas, que se expressam principalmente por meio do instrumento da greve feminista, questionam a existência de fronteiras rígidas entre os Estados e colocam os corpos das mulheres no centro da esfera pública. Nesse sentido, o internacional é substituído pelo transnacional e o universal deixa de ser sinônimo de masculino.

A greve feminista é composta pela interação entre diversas subjetividades de mulheres plurais. Não é uma ação que se esgota em si mesma. Como defendido por Rosa Luxemburgo (1979), a greve é mais um processo do que um evento único, parado no tempo. É um organismo vivo que tem como consequência a expansão dos corpos, dos territórios e das linguagens. A greve feminista, de acordo com Gago, se fortalece na sua impossibilidade. As mulheres que não podem parar, por ocuparem postos de trabalho ainda mais precários, apoiam e convocam a greve, a fortalecendo. Além disso, a greve feminista não se refere somente ao trabalho assalariado, mas também ao trabalho de reprodução social e de cuidado exercido majoritariamente pelas mulheres. Não se trata somente de uma greve laboral, mas de uma greve existencial. Não são apenas os patrões que estão sendo desobedecidos, mas todas as estruturas de poder.

Como argumenta Gago, diversas mobilizações ocorridas ao redor do mundo entre 2016 e 2019 revelam essa pulsão feminista transnacional. Para ilustrar essa afirmação, a autora retoma uma série de protestos feministas que aconteceram nesse período. Na Argentina, o movimento “Ni Una Menos”, desencadeado pelo feminicídio de Chiara Páez, jovem de catorze anos que foi assassinada pelo namorado de dezesseis anos quando estava grávida, reuniu milhares de mulheres nas ruas. Naquele mesmo momento, na Polônia, as mulheres organizaram uma greve feminista massiva em favor da legalização do aborto. Na Itália, as feministas também se mobilizaram contra a violência machista. No México, as trabalhadoras das maquiladoras, fábricas de montagem de peças, entraram em greve denunciando as condições de trabalho desumanas as quais eram submetidas. Na Bolívia, no Uruguai, no Equador, na Colômbia e no Peru as mulheres também ocuparam as ruas. No Chile, a performance feminista que denunciou a violência estatal sobre o corpo das mulheres, intitulada “El violador eres tú”, ultrapassou as fronteiras do país e virou um hino do feminismo transnacional.

No Brasil, as mulheres também expressaram essa potência feminista e o desejo de transformar tudo, como afirma o título do livro. Elas estiveram na linha de frente da oposição à candidatura de Jair Bolsonaro durante as eleições de 2018 a partir do movimento #EleNão. Naquele momento, afirma Gago, as mulheres brasileiras se uniram contra o conservadorismo e o fascismo e pediram justiça pelo feminicídio político de Marielle Franco.

O que todos esses eventos têm em comum? Com base na mobilização feminista, eles colocaram os corpos de mulheres no centro da esfera pública e questionaram a existência das fronteiras nacionais. O internacionalismo feminista proposto por Gago, ou melhor, o transnacionalismo feminista, parte dos territórios em luta e das trajetórias situadas das mulheres. O transnacionalismo feminista propõe outras geografias possíveis a partir das alianças construídas entre as mulheres dos diversos países e dos diferentes territórios. Dessa forma, ele põe em xeque o confinamento nacional e a própria noção de Estado-nação. Além disso, ao resgatar as lutas daquelas que vieram antes de nós, ele conecta diferentes temporalidades, criando uma forma de ativismo político intergeracional.

O transnacionalismo feminista questiona as formas de opressão coloniais sobre os corpos-territórios, nas palavras da própria autora. Partindo da contribuição dos feminismos de(s)coloniais, comunitários e indígenas, ele afirma que nem a terra nem os corpos das mulheres são territórios de conquista. Nesse sentido, o transnacionalismo feminista desmascara a relação entre a violência machista e a violência colonial. O assassinato de Berta Cáceres, ativista feminista indígena e hondurenha, quando analisado a partir das lentes feministas transnacionais, pode ser caracterizado como um feminicídio territorial. Feminicídio porque foi motivado pela condição de gênero de Berta Cáceres, por ela ser mulher. Territorial porque foi feito em nome da invasão dos territórios defendidos por ela e por outras ativistas.

Essa guerra contra os corpos das mulheres não teve início na contemporaneidade. Como defendido por Silvia Federici (2017), teórica feminista italiana em diálogo com Gago, o capitalismo, aliado ao patriarcado, ao racismo e ao colonialismo, declarou historicamente uma guerra contra os corpos das mulheres. Desde a Idade Média, as mulheres e suas práticas comunitárias e de resistência, como as diferentes estratégias utilizadas para a interrupção da gravidez e o protagonismo feminino no momento do parto, são perseguidas, censuradas, punidas e extintas. O fenômeno da “caça às bruxas” teria sido a expressão máxima desse tipo de violência.

Rita Segato (2017), antropóloga feminista argentina, também aponta para o que ela chama da guerra contra as mulheres. Analisando a violência de gênero a partir da interação entre a dominação masculina, o racismo e a colonialidade, ela apresenta ferramentas analíticas importantes para a emancipação das mulheres. Ela defende que, nos países latino-americanos, a violência colonial é fruto de uma masculinidade bélica contra os corpos dominados. Os corpos das mulheres seriam o locus de atuação do “fanatismo patriarcal militante” característico dos donos do poder. Assim, o fim da violência de gênero só poderia acontecer com o fim da violência colonial.

Outro elemento trazido por Verónica Gago diz respeito à crítica realizada por ela às organizações internacionais. Para ela, o feminismo transnacional não limita sua mobilização política com base nos calendários criados por essas organizações, nem adere aos programas criados por elas. Pelo contrário, é um feminismo construído de baixo para cima, que parte das experiências das casas, das ruas, das feiras, das favelas e das comunidades indígenas. Trata-se de um feminismo “callejero”, menos institucionalizado.

Assim como Gago, Federici (2019) também apresenta duras críticas a organizações internacionais como o Banco Mundial e às políticas de microcrédito. Esse tipo de iniciativa, criada com base no discurso da erradicação da pobreza, acabaria, na verdade, gerando mais dívidas e outras formas de dominação colonial. A partir da perspectiva individual do “empoderamento”, essas políticas não enfrentariam as profundas desigualdades estruturais dos países. Na verdade, através da privatização dos territórios comunitários, elas aprofundariam ainda mais essas desigualdades.

Tendo em vista essas formulações, argumentamos que a obra de Verónica Gago e de outras teóricas feministas possibilita um novo olhar para as Relações Internacionais. Um olhar que critica abordagens positivistas, que separam o pesquisador do objeto de estudo e se baseiam na suposta neutralidade da produção de conhecimento. Na contramão do cânone, o feminismo transnacionalista demonstra que todo conhecimento é situado e que nenhum tipo de teorização pode ser feito de maneira abstrata, sem considerar os corpos envolvidos na organização política das sociedades.  A partir da análise das greves feministas ocorridas recentemente ao redor do mundo, percebemos que a fronteira rígida que separa os Estados-nação e cria um sistema internacional homogêneo e abstrato é falaciosa e artificial. Em oposição às teorias hegemônicas das Relações Internacionais, o feminismo transnacionalista reúne a luta das mulheres desde baixo, sem desconsiderar a pluralidade de experiências e de territórios existentes.


Referências bibliográficas
ARUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%. Um Manifesto. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo Editorial, 2019.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Trad. Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feministas. Trad. Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2019. 
GAGO, Verónica. A potência feminista, ou o desejo de transformar tudo. Trad. Igor Peres. São Paulo: Elefante, 2020.
LUXEMBURGO, Rosa. Greve de massas, partido e sindicatos. São Paulo: Kairós, 1979. 
SEGATO, Rita. La guerra contra las mujeres. Madri: Traficantes de Sueños, 2017.  


Beatriz Sanchez é mestra e doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É bacharela em Relações Internacionais pela mesma Universidade. É pesquisadora do Núcleo Democracia e Ação Coletiva do CEBRAP. E-mail: beatriz.rodrigues.sanchez@gmail.com.

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