haydée santamaría e o lugar da guerrilheira na revolução cubana

imagem: selo comemorativo dos 50 anos de Casa de las Américas (1959-2009)

Isabella Meucci

Uma das duas mulheres que estavam no assalto ao Moncada em 1953. Enviada para o exterior para buscar armas, munição e apoio financeiro para o Movimento 26 de Julho. Presente na articulação da guerrilha em Sierra Maestra. Diretora da instituição responsável por apresentar a Revolução Cubana aos intelectuais do mundo todo, mas principalmente por ter colocado a América Latina no centro da cultura nos anos 1960 e 1970 – do boom literário à Nova Trova. Nascida no interior de Cuba, apenas com o equivalente ao ensino fundamental completo, encontrou-se com líderes de esquerda no México, Chile, URSS, Nicarágua, Panamá e Vietnã. Acolheu em sua Casa, a Casa de las Américas, figuras perseguidas por sua orientação política, cultural ou sexual pelo mesmo regime que também ajudou a construir. Decidiu tirar a própria vida no aniversário do evento que lhe elevou ao panteão dos heróis (e seletas heroínas) cubanas.[1] Essa breve introdução a Haydée Santamaría demonstra o quanto sua trajetória carrega elementos inseparáveis para qualquer análise sobre a Revolução Cubana: gênero, política e cultura.

O objetivo deste breve ensaio, no entanto, não será destacar a importância de Haydée Santamaría sob um olhar hagiográfico (o que costuma ser feito com histórias que se pretendem únicas e oficiais), mas sim compreender como a partir de Haydée, em suas contradições e complexidades, pode-se vislumbrar também uma leitura possível das questões de gênero no processo revolucionário cubano em seus desdobramentos iniciais. Para tanto, analisaremos o lugar da mulher na Revolução – constantemente negociado entre a guerra e a domesticidade – tendo Haydée Santamaría como fio condutor.

Do Moncada à Sierra Maestra: o lugar da mulher guerrilheira

Em 1953, Haydée Santamaría e Melba Hernandez foram as únicas mulheres presentes no assalto ao quartel Moncada. O empreendimento foi realizado por um grupo de oposição a Fulgêncio Batista, ditador que chegou ao poder em 1952, apoiado pelos Estados Unidos. O grupo oposicionista decidiu tomar o quartel mais importante de Cuba com um plano de distribuir armas ao povo, ocupar pontos estratégicos e tomar a região oriental do país, a partir de Santiago de Cuba. Iniciado em 26 de julho de 1953, o assalto ao Moncada se tornou um desastre militar. Após a morte de mais de 60 revolucionários e a prisão de outra grande parte dos envolvidos, o grupo passou a ser denominado “Movimento 26 de Julho” (M26). Muitos dos membros eram jovens associados ao movimento estudantil ou ao Partido Ortodoxo, fundado em 1947 por Eduardo Chibás, um ex-líder estudantil. No caso de Haydée, a derrota levou não só à prisão, mas também à perda de seu irmão, Abel Santamaría, e de seu noivo, Boris Santa Coloma – ambos torturados e mortos pelos soldados de Batista.

Sobre o ataque e os dias que o sucederam, Haydée afirmou anos mais tarde:

“Naquele 26 de julho, quando aconteceu tudo o que aconteceu, veio uma transformação em minutos. Pensei que para ser aquela mulher com filhos, com um lar, com um emprego, com estabilidade e sem agonia, seria impossível até mesmo se conseguíssemos tomar o Moncada. Deveria haver uma transformação total em nosso país”[2]

Na intepretação de Haydée, a mudança daquela sociedade, portanto, fazia-se necessária para que outra pudesse ser construída. Seu papel, e de outras mulheres, como guerrilheiras, era de fundamental importância. Mas, de maneira quase contraditória, havia um lugar específico a ser ocupado pelas mulheres após essa transformação: a mãe, com uma família, um lar, um emprego e estabilidade. A guerrilheira precisava existir para dar lugar a essa outra mulher. Em 1960, com a criação da Federación de Mujeres Cubanas (FMC), liderada por Vilma Espín e contando com a participação de Haydée, o logo da instituição simbolizava o novo lugar da guerrilheira: uma mulher de cabelos longos, trajando o que lembra um manto, carregando nos braços uma criança e sendo amparada por uma pomba. A mulher-mãe, enfim protegida e em paz para ajudar a construir uma nova sociedade, parindo e educando as futuras gerações da nação.

Não foi tarefa fácil, no entanto, defender a participação das mulheres na luta revolucionária empreendida em Cuba. A ideia de nação e de Estado cubano se apresentavam de maneira generificada há muito tempo.[3] No final do século XIX a imagem do herói cubano ideal era a do guerreiro viril que não temia se sacrificar pela pátria.[4] O lugar desse herói era a guerra, a política, a conquista de mulheres. Por isso, a participação das mulheres gerava conflitos no interior do movimento revolucionário, já que em oposição aos homens, elas eram frágeis e deveriam ser protegidas do combate. Além disso, se a conquista de mulheres era parte essencial da masculinidade, a presença delas entre os combatentes também poderia ser vista como um objeto de desejo. Essa era uma visão comum na sociedade cubana. Silvia Gil, que trabalhou posteriormente com Haydée na Casa de las Américas, caracterizou qual era a ideia predominante no período sobre as guerrilheiras:

“Eu era uma garota quando ocorreu o ataque ao Moncada e me lembro de ter ouvido que duas mulheres estavam envolvidas. Meu primeiro pensamento foi o de que eram prostitutas que por acaso estavam com os homens! Não nos ocorria que mulheres decentes poderiam fazer esse tipo de coisa” [5]

Como parte da sociedade cubana do período, os homens revolucionários do próprio Exército Rebelde também tinham dificuldade em compreender que aquelas mulheres que se associavam à luta não estavam ali para satisfazê-los. Aleida March, que pediu a Che Guevara para se incorporar ao movimento revolucionário já em Sierra Maestra, relembrou o posto a que foi inicialmente designada e os temores de Che sobre sua presença:

“De uma forma precisa, ele me propôs que podia ficar como enfermeira no acampamento – ele sempre buscava para os recém-chegados uma tarefa específica; não admitia gente vagando e muito menos uma mulher, que podia gerar vontades incontroláveis dentro da tropa” [6]

Para o movimento revolucionário, as mulheres guerrilheiras representavam mais um problema do que uma solução: distraíam os homens e ainda precisavam de proteção. Mesmo depois de aceitas pelo movimento, eram designadas para posições que reafirmavam as desigualdades de gênero como diferenças naturais dos sexos. Em Guerra de Guerrilhas, Che Guevara destacou a necessidade de não se subestimar o papel da mulher no processo revolucionário, especialmente em razão das “qualidades próprias de seu sexo”.[7] A fragilidade e a ternura das mulheres seriam muito úteis no auxílio às forças em combate e aos próprios homens. Para Che, as mulheres poderiam empunhar armas no caso de faltarem braços para fazê-lo, mas esse seria um “um acidente raríssimo na vida guerrilheira”.[8]

Elas, por sua vez, além de precisarem convencer os homens de sua participação, aceitando muitas vezes os postos das “qualidades próprias de seu sexo” a que eram designadas por eles – como enfermeiras, cozinheiras, costureiras, mensageiras, motoristas, propagandistas, buscando apoios e arrecadando armas, munições e fundos – ainda precisavam lidar com a hostilidade dentro do próprio movimento. Aqui, destaco que essas posições, associadas muitas vezes ao cuidado, não eram menores ou acessórias aos combates. Muito pelo contrário, eram extremamente necessárias à continuidade do processo revolucionário, mas delegadas às mulheres especialmente porque todos os homens almejavam estar ali de armas na mão. A participação das mulheres, como guerrilheiras capazes também de empunhar armas, estava muitas vezes condicionada a essas outras posições – tanto por imposição quanto pela aceitação de que esse lugar estava dado por sua condição feminina e não por uma experiência decorrente de sua posição de gênero. Daí decorreria essa experiência muito particular das mulheres na guerra, como uma constante negociação “entre espaços de confronto público, conflito armado e domesticidade”.[9]

Após o ataque ao Moncada, Haydée foi designada pelo M26 para uma missão nos EUA em busca de armas e apoio financeiro. Seu comentário sobre esse período é revelador das tensões de gênero envolvidas no processo revolucionário:

“Ao logo de toda etapa da luta revolucionária eu sempre tive ideias muito avançadas, mas fui muito cuidadosa. Eu cuidava do que se poderia dizer de mim como mulher, porque eu sentia que tinha que proteger Abel, Boris, o Movimento. Hoje, um modo diferente de agir e se vestir é considerado normal, mas naquele momento, aquela aparência e atitudes estavam completamente proibidas para mim. Eu nunca fui somente Haydée. Eu era a irmã de Abel, era a namorada de Boris, era a pessoa ligada a Fidel. Qualquer pretexto para me mostrar de uma forma ruim teria refletido no movimento como um todo” [10]

Haydée carregava consigo não somente a responsabilidade sobre seus atos, mas também dos homens e do próprio movimento do qual fazia parte. O “cuidado” ao qual se refere estaria no apagamento de sua imagem privada, que tinha “ideias avançadas”, porque deveria zelar para que sua imagem pública não comprometesse a luta. Uma mulher que não poderia ser somente ela mesma porque se via responsável por todos aqueles que, por sua vez, julgavam ter que protegê-la. O papel de gênero, reforçado no caso homens guerrilheiros – viris, desejantes, protetores e que empunhavam armas –, deveria ser, em parte, anulado pelas mulheres guerrilheiras para que essas fossem respeitadas pelos seus e pelos demais.

Entre o Moncada e o 1º de janeiro de 1959, outras mulheres também passaram a demandar a participação no processo revolucionário, especialmente no combate direto contra as forças de Batista, tanto na cidade quanto na Sierra Maestra. Entre os nomes mais lembrados estão Célia Sánchez, Vilma Espín, Aleida March e Isabel Rielo. Essa última liderou o Pelotão Mariana Grajales, criado em setembro de 1958, composto somente por mulheres. Embora a historiografia cubana confira lugar de destaque a essas heroínas, ressaltando suas múltiplas funções no processo revolucionário, a imagem que se fixou na luta contra a ditadura de Batista foi a dos três heróis – Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Che Guevara – entrando com tanques e fuzis em Havana.[11]

Aquela transformação total da sociedade, almejada por Haydée na noite do assalto ao Moncada, ainda enfrentou diversos desafios internos para se consolidar. Externamente, no entanto, a situação foi ainda mais difícil. Em meio à Guerra Fria, com ataques de toda ordem perpetrados pelos EUA, a Revolução aproximou-se cada vez mais do socialismo de matriz soviética para garantir sua existência. A mulher representada pela FMC no seu logo inicial – a mãe cubana enfim em paz para cumprir aquela que seria sua principal função – deu lugar à outra: a revolucionária e mãe. Em 1966, após a instauração de um regime de partido único, o Partido Comunista de Cuba (PCC) e a maior aproximação com a URSS, o logo da FMC transformou-se em uma guerrilheira empunhando um fuzil em uma mão e carregando o filho na outra, com os cabelos curtos e trajada com o uniforme dos revolucionários. Defender a pátria dos ataques imperialistas, proteger a Revolução socialista em marcha, mas também garantir a existência das gerações futuras.

Haydée também nos ajuda a compreender esse novo momento quando em uma carta de 1967 a Isabel Parra, logo após a morte de sua mãe, Violeta Parra, aconselha a cantora como se também falasse sobre ela mesma:

“A vida lhe deu alguns desafios difíceis, como revolucionária e também como mulher, mas se você se esforçar e for capaz de lidar com os dois lados dessa equação, você terá sua recompensa (…) Hoje, se aprendermos a entender o papel que temos que desempenhar, podemos e devemos fazer mais do que os homens” [12]

O lugar da mulher no processo revolucionário pode ser compreendido, portanto, como multifacetado e constantemente negociado. Ora o apagamento de seu gênero para não comprometer a imagem do movimento ou gerar “vontades incontroláveis” em seus membros, ora o reforço do mesmo para garantir sua participação na luta. Entre a guerra – que não pode ter rosto de mulher – e a domesticidade – que precisa tê-lo. Transitar para sobreviver em um mundo de heróis viris e, muitas vezes, ainda ter que fazer mais do que todos eles.

Mudança no logo da FMC ao longo dos anos. O primeiro vigorou de 1960 a 1967, o segundo de 1967 a 2007, e o último a partir 2007, em homenagem a Vilma Espín.

Referências bibliográficas

BARROSO SOSA, Esther. Nuestra Haydée. Casa de las Américas, Habana, 2020. Disponível em: http://casadelasamericas.org/misc/Nuestra_Haydee/. Acesso em: 01 nov. 2020.
BEJEL, Emilio. Cuerpos peligrosos en una nación de héroes. Revista Encuentro de la Cultura Cubana. La Habana, n. 41/42, p. 76-82, 2006.
CHAGURI, Mariana; PANIZ, Flávia. Women’s war: gender activism in the Vietnam war and in the wars for Kurdish autonomy. Sociologia & Antropologia. Rio de Janeiro, v.9 n.03, p.895–918, 2019.
GIL apud RANDALL, Margareth. Haydée Santamaría, Cuban revolutionary: she led by transgression. Durham: Duke University Press, 2015.
GUEVARA, Che. A Guerra de Guerrilhas. São Paulo: Edições Populares, 1980.
MARCH, Aleida. Evocação. Minha Vida ao Lado do Che. Rio de Janeiro: Record, 2009.
MÜLLER, Carolina de Azevedo. Haydée Santamaría e a mitificação de uma “heroína da Revolução Cubana”. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado/Licenciatura em História) – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2018.
RANDALL, Margareth. Haydée Santamaría, Cuban revolutionary: she led by transgression. Durham: Duke University Press, 2015.
SAADI, Rafael; MELO, Érica Isabel. Gênero e Revolução Cubana: reflexões sobre as relações de gênero no Exército Rebelde. Diálogos, v. 16, n.3, p. 1267-1287, set.-dez./2012.


[1] Para um detalhado levantamento de dados sobre a vida de Haydée Santamaría antes do assalto ao Moncada, sua atuação no M26 e suas atividades posteriores à Revolução ver: MÜLLER, Carolina de Azevedo. Haydée Santamaría e a mitificação de uma “heroína da Revolução Cubana”. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado/Licenciatura em História) – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2018.
[2] Retirado de uma fala de Haydée para um documentário e reproduzido em: BARROSO SOSA, Esther. Nuestra Haydée. Casa de las Américas, Habana, 2020. Disponível em: http://casadelasamericas.org/misc/Nuestra_Haydee/. Acesso em: 01 nov. 2020.
[3] SAADI, Rafael; MELO, Érica Isabel. Gênero e Revolução Cubana: reflexões sobre as relações de gênero no Exército Rebelde. Diálogos, v. 16, n.3, p. 1267-1287, set.-dez./2012.
[4] BEJEL, Emilio. Cuerpos peligrosos en una nación de héroes. Revista Encuentro de la Cultura Cubana. La Habana, n. 41/42, p. 76-82, 2006.
[5] GIL apud RANDALL, Margareth. Haydée Santamaría, Cuban revolutionary: she led by transgression. Durham: Duke University Press, 2015, p.150.
[6] MARCH, Aleida. Evocação. Minha Vida ao Lado do Che. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.61.
[7] GUEVARA, Che. A Guerra de Guerrilhas. São Paulo: Edições Populares, 1980, p.79.
[8] Idem, p.80.
[9] CHAGURI, Mariana; PANIZ, Flávia. Women’s war: gender activism in the Vietnam war and in the wars for Kurdish autonomy. Sociologia & Antropologia. Rio de Janeiro, v.9 n.03, p.895–918, 2019. Aproveito a citação para agradecer aos comentários da Profa. Mariana Chaguri em minha banca de qualificação do doutorado, que me ajudaram muito na escrita deste ensaio e no desenrolar da própria tese.
[10] SANTAMARÍA apud RANDALL, Margareth. Haydée Santamaría, Cuban revolutionary: she led by transgression. Durham: Duke University Press, 2015, p.94
[11] VASSI, Cássia. A mulher cubana e sua sociedade: da independência à revolução. Dimensões, n.19, p.157-185, 2007.
[12] SANTAMARÍA apud RANDALL, Margareth. Haydée Santamaría, Cuban revolutionary: she led by transgression. Durham: Duke University Press, 2015, p.139.

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