a questão da mulher: de um ponto de vista socialista – eleanor marx e edward aveling

[Confira aqui a apresentação de Cecilia Farias, Letícia Bergamini e Lia Urbini para esta tradução inédita para o português]

Arte de Cecilia Farias @bionissima

[Publicado originalmente na Westminster Review, vol. 125, janeiro de 1886, p. 207–222. Tradução feita a partir da transcrição disponível em marxists.org]

Tradução e notas: Helena Barbosa,
Maíra Mee  Silva
e Maria Teresa Mhereb
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A publicação do livro Woman – Past, Present and Future [Mulher – Passado, Presente e Futuro][1], de August Bebel[2], e a publicação de uma tradução da obra em inglês, faz oportuna qualquer tentativa de explicar a posição das e dos socialistas em relação à questão da mulher. A recepção que a obra teve na Alemanha e na Inglaterra torna essa tentativa imperativa, a menos que nossos antagonistas estejam dispostos a nos entender mal e que estejamos dispostos a permanecer passivos diante desse mal-entendido. A autora e o autor deste artigo imaginaram que o público inglês, com a justiça que se diz ser sua prerrogativa especial, daria ouvidos aos pontos de vista, argumentos e conclusões daquelas e daqueles que se autodenominam socialistas. Assim, quaisquer que sejam as opiniões desse público inglês quanto às conclusões, suas opiniões terão, pelo menos, uma base de conhecimento. A autora e o autor consideraram, ainda, que o tratamento de uma questão como essa alcança seu melhor proveito quando um homem e uma mulher pensam e trabalham juntos. Ao longo do que se segue, ela e ele desejam que se entenda que estão expressando suas próprias opiniões como dois socialistas falando a partir de pontos de vista individuais. Ainda que acreditem que essas opiniões sejam compartilhadas pela maioria de suas e seus camaradas e pela maioria das trabalhadoras e trabalhadores da Inglaterra, do continente e da América[3], elas não devem de forma alguma ser entendidas como algo com que seu Partido tenha, necessariamente, compromisso, seja com todas as proposições ou com alguma em específico.

Antes de qualquer coisa, uma explicação rápida sobre a obra que serve de ponto de partida para este discurso. Bebel é um trabalhador, socialista e membro do Reichstag [Parlamento]. Seu livro Die Frau [A Mulher]foi proibido na Alemanha, o que aumentou a dificuldade em obter o livro e, ao mesmo tempo, o número de pessoas que desejam obtê-lo. A imprensa alemã condenou-o imediatamente e atribuiu ao seu autor todos os vícios possíveis e impossíveis. Tanto a influência da obra quanto o significado desses ataques serão compreendidos por aquelas e aqueles que tiverem em mente a posição e o caráter pessoal de Bebel. Um dos fundadores do Partido Socialista na Alemanha e pioneiro entre os expoentes do pensamento econômico de Karl Marx, talvez o melhor orador de seu país, Bebel é amado pelo proletariado e tem sua confiança, sendo odiado e temido pelos capitalistas e aristocratas. Ele não é apenas o homem mais popular da Alemanha. É respeitado pelas pessoas que o conhecem, tanto amigas quanto inimigas. Naturalmente, a calúnia se ocupa dele, mas, sem qualquer hesitação, podemos dizer que as acusações feitas contra ele são tão falsas quanto venenosas.

A tradução para o inglês de seu último trabalho encontrou, em alguns setores, uma recepção injuriosa. A ira desses críticos furiosos seria melhor direcionada se se debruçasse sobre o descuido inigualável dos editores dessa versão em inglês. Tal descuido é tanto mais notável e imperdoável porque a edição alemã, impressa em Zurique, é particularmente isenta de erros. Devemos excluir de parte de nossa condenação a tradutora, Dra. Harriet B. Adams Walther. No geral, seu trabalho foi bastante bem feito, embora uma aparente falta de familiaridade com termos e expressões econômicas tenha produzido ambiguidade aqui e ali e haja uma inexplicável objeção ao uso do plural. Mas o livro está repleto de erros de impressão, tipografia, ortografia e pontuação. Ter em um livro de apenas 164 páginas um agregado de, pelo menos, 170 erros graves é realmente muito ruim.

Não nos propomos a lidar com a primeira parte, ou a parte histórica, da obra. Por mais que seja profundamente interessante, deve ser deixada de lado, já que tanto deve ser dito sobre as relações atuais entre homens e mulheres e sobre as mudanças que acreditamos serem iminentes. Além disso, a parte histórica não é exatamente o melhor do livro. Tem seus erros aqui e ali. O livro mais confiável para consultar sobre esta questão da mulher é A origem da família, da propriedade privada e do Estado,de Friedrich Engels. Voltemo-nos, portanto, para a sociedade e as mulheres de hoje.

A sociedade está, do ponto de vista de Bebel e, pode-se dizer aqui, das e dos socialistas em geral, em uma condição de agitação, de fermentação. A agitação é de uma massa de podridão; a fermentação, de putrefação. A dissolução, nos dois sentidos da palavra, está próxima. A morte do método capitalista de produção e, portanto, da sociedade baseada nele está a uma distância mensurável em termos de anos e não de séculos, segundo nosso entendimento. E essa morte significa a re-solução da sociedade em formas mais simples, mesmo em elementos que, recombinados, produzirão uma nova e melhor ordem das coisas. A sociedade está moralmente falida e em nada essa horrenda falência moral se apresenta com uma distinção mais hedionda do que na relação entre homens e mulheres. Os esforços para adiar esse colapso sacando leis da imaginação são inúteis. Os fatos têm de ser enfrentados.

Um desses fatos de maior importância não é, e nunca foi, confrontado de forma justa pelo homem ou mulher comum ao considerar essas relações. Não foi compreendido nem mesmo pelos homens e mulheres acima da média que fizeram da luta pela maior liberdade das mulheres a própria ocupação de suas vidas. Esse fato fundamental é que se trata de uma questão de economia. A posição das mulheres se apoia, como tudo em nossa complexa sociedade moderna, em uma base econômica. Se Bebel não tivesse feito nada além de insistir nisso, seu trabalho já teria sido valioso. A questão da mulher implica a organização da sociedade como um todo. Para aquelas e aqueles que não entenderam essa ideia, podemos citar Bacon no primeiro livro do Avanço do Conhecimento[4]: “Outro erro (…) é que, após a distribuição de determinadas Artes e Ciências, os homens abandonaram a universalidade (…) o que apenas cessa toda a progressão. (…) Também não é possível descobrir as partes mais remotas e profundas de qualquer ciência ao ficar apenas no nível dessa mesma ciência e não ascender a um nível mais alto.” Esse erro, de fato, quando “homens (e mulheres) abandonam a universalidade”, é algo mais do que um “humor pecaminoso”. É uma doença. Ou, para usar uma ilustração possivelmente sugerida pela passagem e pela frase recém citada, os que atacam o tratamento que se dá nos dias de hoje às mulheres sem buscar a causa disso na economia da nossa sociedade atual são como médicos que tratam de uma enfermidade localizada sem investigar a saúde corporal geral.

Essa crítica não se aplica apenas à pessoa comum que faz piada de qualquer discussão em que se aborde a questão do sexo. Aplica-se às naturezas superiores, em muitos casos sinceras e reflexivas, que veem que as mulheres estão em situação perigosa e estão ansiosas para que algo seja feito para melhorar sua condição. São pessoas admiráveis, trabalhadoras esforçadas que lutam pelo objetivo perfeitamente justo que é o sufrágio feminino; pela revogação da Lei de Doenças Contagiosas[5], uma monstruosidade gerada pela covardia e brutalidade masculinas; pelo ensino superior para as mulheres; pela abertura das universidades, das profissões eruditas e todas as vocações, de professora a mascate. Em toda essa tarefa – importante, porém com certos limites – três coisas são especialmente notáveis. Em primeiro lugar, as interessadas são pessoas das classes mais abastadas, via de regra. Com a única e apenas parcial exceção do movimento das Doenças Contagiosas, quase nenhuma das mulheres com participação de destaque nesses diversos movimentos pertence à classe trabalhadora. Estamos preparados para o comentário de que algo muito parecido com isso pode ser dito, no que diz respeito à Inglaterra, do movimento maior que reivindica nossos esforços especiais. Certamente, o socialismo é, no momento, neste país, pouco mais do que um movimento literário. Há apenas alguns poucos trabalhadores margeando seus contornos. Mas podemos responder a esta crítica dizendo que na Alemanha este não é o caso, e que, mesmo aqui, o socialismo está agora começando a ganhar força entre os trabalhadores.

O segundo ponto é que todas essas ideias de nossas mulheres avançadas são baseadas na propriedade privada ou em questões sentimentais ou profissionais. Nenhuma delas chega ao âmago da questão, a base econômica não apenas de cada um desses três pontos, mas da própria sociedade. Este fato não é surpreendente para aquelas e aqueles que notam a ignorância sobre economia característica da maioria de quem trabalha para a emancipação das mulheres. A julgar pelos escritos e discursos da maioria das defensoras e dos defensores das mulheres, nenhuma atenção foi dada por elas e eles ao estudo da evolução da sociedade. Mesmo a economia política ortodoxa, que é, como pensamos, enganosa em suas declarações e imprecisa em suas conclusões, não parece ter sido compreendida em sua profundidade de forma geral.

O terceiro ponto deriva do segundo. A escola de que falamos não faz nenhuma sugestão que esteja fora dos limites da sociedade de hoje. Portanto, seu trabalho é, do nosso ponto de vista, de pouco valor. Apoiaremos todas as mulheres, não apenas as que têm propriedade e que são habilitadas a votar, bem como a revogação da Lei de Doenças Contagiosas e o desimpedimento de qualquer vocação para ambos os sexos. A verdadeira posição das mulheres em relação aos homens não seria abordada adequadamente (não nos voltamos, no momento, para os resultados do aumento da concorrência e a mais amarga luta pela existência), pois nenhuma dessas coisas, exceto indiretamente a Lei de Doenças Contagiosas, as afeta em suas relações de sexo. Também não devemos negar que, com o ganho de cada um desses pontos, a tremenda mudança que está por vir seria mais fácil de alcançar. Mas é essencial não perder de vista a mudança máxima, que só virá quando a mudança social ainda mais tremenda da qual ela é corolária tiver ocorrido. Sem essa mudança social maior, as mulheres nunca serão livres.

A verdade, não totalmente reconhecida mesmo por aquelas e aqueles ansiosos por fazer o bem à mulher, é que esta, como as classes trabalhadoras, está em uma condição de opressão; que sua posição, como a dessas classes, é de degradação impiedosa. As mulheres são as criaturas de uma tirania organizada dos homens, assim como os trabalhadores são as criaturas de uma tirania organizada dos ociosos. Mesmo onde tanto é compreendido, nunca devemos nos cansar de insistir na não compreensão de que, para as mulheres, assim como para as classes trabalhadoras, nenhuma solução das dificuldades e problemas que se apresentam é realmente possível na atual condição da sociedade. Tudo o que é feito, não importa com que floreio de trombetas seja anunciado, é paliativo, e não corretivo. Tanto as classes oprimidas quanto as mulheres e os produtores imediatos devem entender que sua emancipação virá deles mesmos. As mulheres terão como aliados os melhores homens, assim como os trabalhadores têm encontrado aliados entre filósofos, artistas e poetas. Entretanto, as mulheres não têm nada a esperar dos homens em geral, e os trabalhadores não têm nada a esperar da classe média como um todo.

A verdade disso vem à tona no fato de que, antes de passarmos para a consideração da condição das mulheres, temos de fazer uma advertência. Para muitas pessoas, o que temos a dizer do Agora parecerá exagerado; do muito que temos a dizer sobre o Depois, visionário, e, talvez, tudo o que for dito, perigoso. Para as pessoas cultas, a opinião pública ainda é apenas a do homem, e o costume perfaz a moral. A maioria ainda acentua a ocasional inaptidão da mulher como uma barreira para sua consideração igualitária com o homem. Ainda discorre sobre a vocação natural do sexo feminino. Quanto ao primeiro ponto, as pessoas esquecem que a inaptidão, em certos momentos, é, em grande medida, exagerada pelas condições insalubres de nossa vida moderna, se, de fato, não for totalmente devida a elas. Dadas condições racionais, desapareceria em grande medida, senão completamente. Esquecem também que tudo o que é conversado de forma tão desinibida quando a liberdade das mulheres está em discussão é convenientemente ignorado quando o assunto é sua escravidão. Esquecem que, pelos empregadores capitalistas, essa mesma inaptidão da mulher só é levada em conta com o objetivo de reduzir o valor geral dos salários. Mais uma vez, não há uma vocação natural das mulheres, assim como não há uma lei natural de produção capitalista ou um limite natural para a quantidade do produto do trabalhador que vai para ele como meio de subsistência. O fato de que, no primeiro caso, a vocação da mulher deve ser apenas o cuidado das crianças, a manutenção das condições da casa e uma obediência geral ao seu senhor; que, na segunda, a produção de mais valor seja uma preliminar necessária para a produção de capital; que, no terceiro, a quantia que o trabalhador recebe para seus meios de subsistência é apenas o suficiente para mantê-lo acima da linha da fome: não são leis naturais no mesmo sentido que das leis do movimento. São apenas convenções temporárias da sociedade, como a convenção de que o francês é a língua da diplomacia.

Tratar a posição das mulheres no momento atual em detalhes é repetir uma história mil vezes contada. No entanto, para nosso propósito, devemos reenfatizar alguns pontos familiares, e talvez mencionar um ou dois menos familiares. E, primeiro, uma ideia geral que tem a ver com todas as mulheres. A vida da mulher não coincide com a do homem. Suas vidas não se cruzam, em muitos casos nem sequer se tocam. Portanto, a vida da raça[6] é tolhida. Segundo Kant, “um homem e uma mulher constituem, quando unidos, o ser completo e inteiro; um sexo completa o outro”. Mas quando cada sexo está incompleto, e um incompleto até a medida mais lamentável, e quando, via de regra, nenhum deles entra em contato real, completo, habitual, livre, mente a mente, com o outro, o ser não é nem completo nem inteiro.

Segundo, uma ideia especial que tem a ver com apenas um certo número, porém grande, de mulheres. Todos sabem o efeito que certas inclinações, ou hábitos de vida, têm no físico e na face dos que os seguem. O homem que monta a cavalo e o bêbado são conhecidos pelo caminhar, pela fisionomia. Quanta e quantos de nós já pararam para pensar, ou ousaram parar para pensar, sobre o grave fato de que, nas ruas e prédios públicos, no círculo de amigos, podemos, rapidamente, dizer quais são as mulheres solteiras, se elas estão além de uma certa idade que escritores vivazes chamam, com uma delicada ironia peculiarmente sua, de incerta? Mas não conseguimos diferenciar um homem solteiro de um casado. Antes que a pergunta que surge deste fato seja feita, recordemos a terrível proporção de mulheres solteiras. Por exemplo, na Inglaterra, no ano de 1870, 41% das mulheres estavam nessa condição. A pergunta a que tudo isso leva é simples, legítima e apenas desagradável por causa da resposta que deve ser dada. Como é que nossas irmãs carregam em si essa marca de instintos perdidos, afetos sufocados, uma natureza em parte assassinada? Como é que seus irmãos mais afortunados não carregam tal marca? Aqui, com certeza, nenhuma lei natural prevalece. Esta licença dada ao homem, essa possibilidade de que não faça parte de legiões de uniões nobres e sagradas – algo que recai pesadamente sobre a mulher – é o resultado inevitável do nosso sistema econômico. Nossos casamentos, como nossa moral, são baseados no comercialismo. Não ser capaz de cumprir compromissos comerciais é um pecado maior do que a calúnia de um amigo, e nossos casamentos são transações comerciais.

Considerando as mulheres em geral ou apenas aquela triste irmandade, estampando sobre seu feitio de melancolia o carimbo da eterna virgindade, encontramos uma falta de ideias assim como de ideais. A razão disso é, novamente, a posição econômica de dependência do homem. As mulheres, mais uma vez, como os trabalhadores, foram expropriadas quanto aos seus direitos como seres humanos, assim como os trabalhadores foram expropriados quanto aos seus direitos como produtores. O método, em cada caso, é o único que torna a expropriação possível a qualquer momento e sob qualquer circunstância – e esse método é a força.

Na Alemanha, hoje, a mulher é uma menor de idade em relação ao homem. Um marido de poucas posses pode castigar uma esposa. Todas as decisões quanto às crianças pertencem a ele, até mesmo a escolha da data do desmame. Qualquer que seja a fortuna que a esposa possa ter, ele a administra. Ela não pode entrar em acordos sem o seu consentimento, não pode participar de associações políticas. É desnecessário que apontemos quão melhor, nos últimos anos, tais coisas foram geridas na Inglaterra, ou lembrar a nossas leitoras e leitores que as mudanças recentes se deveram à ação das próprias mulheres. Mas é necessário lembrar que, mesmo com todos esses direitos civis adicionados, as mulheres inglesas, as casadas assim como as solteiras, são moralmente dependentes do homem, e são maltratadas por ele. A posição da mulher não é muito melhor em outras terras civilizadas, com a estranha exceção da Rússia, onde as mulheres são socialmente mais livres do que em qualquer outra parte da Europa. Na França, as mulheres da classe média alta estão mais infelizes do que na Inglaterra. As da classe média baixa e da classe trabalhadora estão melhor do que na Inglaterra ou na Alemanha. Mas dois parágrafos consecutivos no Código Civil, 340 e 341, mostram que a injustiça às mulheres não é apenas teutônica. La recherche de la paternité est interdite e La recherche de la maternité est admise[A busca pela paternidade é proibida e A busca pela maternidade é admitida].

Todos os que se recusam a ignorar fatos sabem que as palavras de Demóstenes sobre os atenienses são verdadeiras a respeito de nossas classes médias e altas inglesas de hoje: “Casamos para ter filhos legítimos e uma fiel guardiã da casa; mantemos concubinas como servas para atender-nos diariamente, mas buscamos as hetairas para o deleite do amor”. A esposa ainda é a geradora de filhos e a guardiã da casa. O marido vive e ama de acordo com seu bel prazer. Mesmo aqueles que admitem isso possivelmente entrarão em desacordo conosco quando sugerimos que é outra injustiça para com as mulheres a rigorosa regra social de que só pode vir do homem a primeira oferta de afeto, a proposta de casamento. Este pode ser o princípio da compensação. Depois do casamento, as ofertas vêm geralmente da mulher, e a reserva cabe ao homem. Nosso Shakespeare mostrou que isso não é uma lei natural. Miranda, sem restrições da sociedade, se oferece a Ferdinando. “Sou sua esposa, se quiser casar; senão, morro sua serva”[7], e Helena, em Tudo está bem quando acaba bem, com seu amor por Bertram, que a leva de Rousillon para Paris e Florença, é, como Coleridge considera, a personagem mais adorável de Shakespeare.

Dissemos que o casamento é baseado no comercialismo. É uma transação de troca em muitos casos e, em todos, sob a condição das coisas de hoje em dia, a questão das formas e dos meios desempenha um grande papel na necessidade. Entre as classes mais altas, os negócios são realizados de forma bastante desavergonhada. As imagens de Sir Georgius Midas na revista Punch são testemunho disso. A natureza do periódico em que aparecem nos lembra que todos os horrores que revelam são considerados apenas como falhas, não como pecados. Na classe média baixa, muitos homens negam a si mesmos a alegria da vida doméstica até que tenham superado seu desejo por ela. Muitas mulheres fecham o livro de suas vidas em sua página mais bela para sempre, por causa do pavor rerum angustarum domi [dos confins estreitos da vida doméstica].

Outra prova da natureza comercial do nosso sistema matrimonial é oferecida pelos diferentes momentos em que o casamento é costumeiro nos diferentes graus da sociedade. O momento não é de forma alguma regulado, como deveria ser, pelo tempo da vida. Alguns indivíduos favorecidos, reis, príncipes e aristocratas, se casam ou são casados, na idade em que a Natureza aponta como apropriada. Muitos membros da classe trabalhadora se casam jovens – ou seja, no período natural. O capitalista virtuoso que nessa idade faz uso habitual da prostituição dilata untuosamente sobre a improvidência da artesã. O estudante de fisiologia e economia observa o fato como uma evidência interessante de que nem mesmo o temeroso sistema capitalista esmagou um instinto normal e justo. Mas, com o estrato da sociedade preso entre esses dois, as uniões, como acabamos de ver, não podem ocorrer, via de regra, até anos após o auge da juventude ter passado e a paixão estar em declínio.

Tudo isso diz muito mais sobre as mulheres do que sobre os homens. A sociedade fornece, reconhece e legaliza para estes os meios para satisfazer o instinto sexual. Aos olhos dessa mesma sociedade, uma mulher solteira que age segundo o costume de seus irmãos solteiros e dos homens que dançam com ela nos bailes ou trabalham com ela no comércio é uma pária. E mesmo dentro das classes trabalhadoras, que se casam no período normal, a vida da mulher no sistema atual é a mais árdua e maçante das duas. A velha promessa da lenda – “multiplicarei os sofrimentos de tua gravidez”[8] –não é apenas cumprida, mas ampliada. Ela tem de criá-los por longos anos, sem descanso, sem luz de esperança, na mesma atmosfera de trabalho constante e pesar. O homem, por mais exausto que esteja pelo trabalho, tem a noite para nada fazer. Mas a mulher está ocupada até a hora de dormir. Frequentemente, com as crianças pequenas, sua labuta dura até tarde, ou mesmo por toda a noite.

Quando o casamento ocorre, tudo é favorável a um e adverso à outra. Alguns se surpreendem que John Stuart Mill tenha escrito: “O casamento é, atualmente, a única forma real de servidão reconhecida pela lei”.  O que surpreende, para nós, é que ele nunca tenha visto essa servidão como uma questão, não de sentimento, mas de economia, fruto do nosso sistema capitalista. Depois do casamento, como antes, a mulher vive sob restrições, e o homem não. O adultério dela é um crime; o dele, um pecado venial. Ele pode obter o divórcio, com base no adultério, mas ela não. Ela deve provar que houve crueldade (por exemplo, física). Os casamentos assim arranjados, assim realizados, com tal sequência de circunstâncias e consequências, parecem-nos – digamo-no deliberadamente – piores do que a prostituição. Chamá-los de sagrados ou morais é um sacrilégio.

Em conexão com o tema do divórcio, podemos mencionar um exemplo de autoengano, não apenas da sociedade e de suas classes constituintes, mas também de indivíduos. O clero está pronto e disposto a casar não só qualquer pessoa, mas todas as pessoas, de qualquer idade, com qualquer vício ou virtude, e sem qualquer objeção, como diz certo tipo de anúncios. Mesmo assim, o clero opõe-se fortemente ao divórcio. Protestar contra tais uniões discordantes, conforme eles repetidamente ratificam, seria uma interferência na liberdade do sujeito. Mas se opor a qualquer coisa que facilite o divórcio é uma interferência muito mais grave na liberdade do sujeito. Toda a questão do divórcio – complexa, em qualquer caso –, torna-se ainda mais complicada pelo fato de que deve ser considerada primeiro em relação às condições presentes, depois em relação às condições socialistas do futuro. Pensadoras e pensadores importantes clamam por maior facilidade de divórcio agora. Elas e eles afirmam que o divórcio deve ser pelo menos tão fácil quanto o casamento; que um compromisso assumido por pessoas que tiveram pouca ou nenhuma oportunidade de se conhecerem não deve ser irrevogável, nem mesmo estritamente vinculatória; que a incompatibilidade de temperamento, a não realização de esperanças profundas, a aversão real deveriam ser motivos suficientes para a separação; por fim, e o mais importante de tudo, que as condições do divórcio devem ser iguais para os dois sexos. Tudo isso é excelente, e seria não apenas viável, mas justo, se – e notem este “se” – as posições econômicas dos dois sexos fossem iguais. Mas não são. Consequentemente, embora concordando teoricamente com cada uma dessas ideias, acreditamos que elas, aplicadas na prática sob nosso sistema atual, resultariam, na maioria dos casos, em ainda mais injustiça para as mulheres. O homem poderia tirar vantagem delas; a mulher não, exceto nos raros casos em que dispusesse de propriedade privada ou algum meio de vida. A anulação da união seria, para ele, liberdade; para ela, fome para si e para seus filhos.

Podemos nos perguntar: esses mesmos princípios do divórcio se manteriam sob o regime socialista? Nossa resposta é esta: a união entre homens e mulheres, que será explicada a seguir, será vista como sendo de tal natureza a eliminar totalmente a necessidade de divórcio.

Quanto ao nosso tratamento dos dois últimos pontos, em que consideramos o futuro, esperamos um julgamento mais hostil do que sobre qualquer coisa que tenha acontecido antes. A ambos estes pontos uma breve referência já foi feita. O primeiro é o instinto sexual. Para nós, todo o método adotado pela sociedade para lidar com isso é gravemente equivocado. Está errado desde o início. Nossas filhas e filhos são constantemente silenciados quando perguntam sobre a concepção e o nascimento dos bebês. A pergunta é tão natural quanto a sobre as batidas do coração ou os movimentos da respiração, e deve ser respondida tão pronta e claramente quanto as outras. Talvez haja um momento na vida, quando somos muito jovens, em que a explicação de qualquer fato fisiológico dada como resposta a uma pergunta não seja compreendida, embora não estejamos preparados para definir esse momento. Nunca pode haver um tempo em que a mentira deva ser ensinada sobre qualquer função do corpo. À medida que nossas meninas e meninos crescem, todo o assunto das relações sexuais se torna um mistério e uma vergonha. Esta é a razão pela qual uma curiosidade indevida e doentia é gerada nelas e neles. A mente fica excessivamente concentrada nisso, permanece por muito tempo insatisfeita, ou incompletamente satisfeita – e passa a uma condição mórbida. Para nós, parece que os órgãos reprodutivos devem ser discutidos tão francamente, tão livremente, entre pais e filhos, quanto o aparelho digestivo. A objeção a isso é apenas uma forma do preconceito vulgar contra o ensino da fisiologia, um preconceito que encontrou sua expressão mais verdadeira em uma carta recente de um pai a uma professora do Conselho Escolar. “Por favor, não ensine a minha menina nada sobre ela por dentro. Isso não lhe acrescenta nada de bom, e é indelicado. Quantas e quantos de nós não sofremos com a  suggestio falsi ou a supressio veri nesse quesito, devido aos pais, a professoras e professores, ou mesmo a empregadas e empregados? Cada uma e cada um de nós deve perguntar-se honestamente de que boca e em que circunstâncias aprendeu pela primeira vez a verdade sobre a concepção. E, no entanto, é uma verdade que, tendo a ver com o nascimento das crianças, não podemos errar ao considerá-la sagrada. Em quantos casos não foi com a mãe, que tinha o direito mais sagrado de ensinar – um direito adquirido pelo sofrimento?

Não podemos admitir, também, que falar honestamente com as crianças sobre esses assuntos seja prejudicá-las. Citemos Bebel, que, por sua vez, cita a Sra. Isabella Beecher Hooker: “Para satisfazer os constantes questionamentos de seu filho de oito anos quanto à sua origem, e para não lhe contar fábulas, que ela considerava imorais, ela lhe contou toda a verdade. A criança ouviu com a maior atenção e, desde o dia em que ouviu a dor e a ansiedade que causara à sua mãe, agarrou-se a ela com uma ternura e uma reverência inteiramente novas. A mesma reverência que mostrou também depois para com outras mulheres.” Conhecemos pelo menos uma mulher que contou toda a verdade a todos os seus filhos. Os filhos têm por ela um amor e uma reverência muito mais profundos e diferentes do que antes.

À falsa vergonha e ao falso segredo, contra os quais protestamos, acompanha a separação nada saudável dos sexos, que começa quando as crianças abandonam o berçário e só termina quando, mortos, os homens e as mulheres são depositados no solo comum. Em The Story of an African Farm [A história de uma fazenda africana][9] , a menina Lyndall grita: “Já fomos iguais uma vez, quando, bebês recém-nascidos, nos pegaram no colo nossas enfermeiras. Seremos iguais novamente quando elas amarrarem nossas mandíbulas para o último sono.” Nas escolas, essa separação é realizada, e, mesmo em algumas igrejas, o sistema, com toda a sua sugestividade, está em voga. Sua pior forma está, naturalmente, nas instituições não humanas denominadas mosteiros e conventos. Mas todas as formas menos virulentas do mesmo mal são, apenas em menor grau, não humanas.

Mesmo na sociedade comum, as restrições impostas às relações sexuais entre os sexos são, como medidas repressivas para com garotos em idade escolar, a fonte de muitas malícias e maldades. Essas restrições são especialmente perigosas quando o assunto adentra os temas das conversas. Todo homem vê a consequência disso, embora possa não vê-la como consequência, no tipo de conversa que se tem nas salas de fumo da sociedade de classe média e alta. Somente quando homens e mulheres de mente pura, ou, pelo menos, que lutem pela pureza, discutirem amplamente a questão, como seres humanos livres, olhando francamente nos olhos uns dos outros, haverá alguma esperança de solução. Isso, como viemos reiterando, deve ser acompanhado pela compreensão de que a base de todo esse tema é econômica. Mary Wollstonecraft, nos Rights of Woman [Direitos da mulher][10] ensinou, em parte, essa combinação dos sexos, em vez de sua separação ao longo da vida. Ela insistiu que as mulheres tivessem as mesmas vantagens educacionais, que fossem educadas nas mesmas escolas e universidades que os homens; que, desde a infância até a idade adulta, ambos deveriam ser educados lado a lado. Essa exigência é um espinho dolorido na carne do Sr. J. C. Jeaffreson[11] em sua última coletânea.

Duas formas extremas de distinção dos sexos que brotam dessa separação são, como Bebel aponta, o homem afeminado e a mulher masculina. Esses são dois tipos diante dos quais até mesmo a pessoa média recua com um horror perfeitamente natural ao não natural. Por razões que foram indicadas mais de uma vez, o primeiro é menos frequente do que o último. Mas esses dois tipos não esgotam a lista de formas doentes devido à forma anormal com que tratamos as relações sexuais. A virgindade mórbida, da qual já se fez menção, é outra. A loucura é a quarta. O suicídio, o quinto. Quanto a estes dois últimos, alguns números em um caso e uma advertência no outro. A advertência primeiro. A maioria das mulheres que cometem suicídio tem entre dezesseis e vinte e um anos. Muitos deles, é claro, ocorrem devido à gravidez, que nosso sistema social rebaixa ao nível de um crime. Mas outros são devidos a instintos sexuais não concretizados, muitas vezes escondidos sob o eufemismo da desilusão amorosa. Aqui estão alguns números relativos ao lunatismo, extraídos da p. 47 da tradução em inglês de Bebel: Hanôver, 1881, uma pessoa lunática para 457 solteiras, uma pessoa lunática para 1.316 habitantes casados; Saxônia, 260 lunáticas solteiras para um milhão de mulheres sãs solteiras, 125 pessoas lunáticas casadas para um milhão de pessoas casadas sãs; Prússia, 1882, para cada 10.000 habitantes, 32,2 homens lunáticos solteiros, 9,5 homens lunáticos casados, 29,3 mulheres solteiras lunáticas e 9,5 mulheres casadas lunáticas.

É hora de homens e mulheres reconhecerem que o destruição do sexo é sempre seguido de desastre. A paixão extrema é nociva. Mas o extremo oposto, o sacrifício do instinto natural saudável, também o é. “Aqueles que se situam num estremo ou no outro são pessoas detestáveis”[12] é tão verdadeiro aqui quanto a melancolia e alegria excessivas que Rosalinda atacou na Floresta de Arden. E, ainda assim, milhares de mulheres passam, através de chamas infernais que só elas conhecem, pelo Moloch[13] do nosso sistema social; milhares de mulheres são espoliadas, mês após mês, ano após ano, de sua primavera. É por isso que nós – e conosco, neste, como em todos os casos, a maioria dos socialistas – afirmamos que a castidade é doentia e profana. Sempre entendendo por castidade a supressão de todos os instintos ligados à concepção das crianças, consideramos a castidade como um crime. Como com todos os crimes, criminosa não é a pessoa que sofre individualmente, mas a sociedade como um todo, que a força a pecar e a sofrer. Aqui, estamos com Shelley. Em suas Notas para Queen Mab[14], temos a seguinte passagem: “A castidade é uma superstição monástica e evangélica, uma inimiga da temperança natural até maior do que a sensualidade não intelectual; pois atinge a raiz de toda a felicidade doméstica, e consigna mais da metade da raça humana à miséria, que alguns poucos podem monopolizar de acordo com a lei.” Finalmente, nesta conexão mais importante, chamamos a atenção para o acúmulo de testemunhos médicos quanto ao fato de que as mulheres sofrem mais do que os homens sob essas restrições.

Nosso outro ponto, antes de passarmos para a parte final deste artigo, é o resultado necessário do nosso sistema atual – a prostituição. Este mal é, como dissemos, reconhecido, e é legalizado em alguns países europeus. Tudo o que precisamos acrescentar aqui é o truísmo de que seus principais apoiadores pertencem à classe média. A aristocracia não está, é claro, excluída disso; mas o pilar desse sistema hediondo é o respeitável, abastado e virtuoso capitalista. Isso não se deve apenas ao grande acúmulo de riqueza e aos consequentes hábitos de luxo. O fato significativo é que em uma sociedade baseada no capital, cujo centro é, portanto, a classe média capitalista, a prostituição, um dos piores resultados dessa sociedade, é apoiada principalmente por essa mesma classe. Isso aponta claramente a moral que, mais uma vez, sob uma nova forma, nós clamamos. Aquilo que pode ser dito nos casos especiais que o Pall Mall Gazette[15] tornou familiares para nós aplica-se à prostituição em geral. Para nos livrarmos da prostituição, devemos nos livrar das condições sociais que a engendram. Reuniões à meia-noite, refúgios para os aflitos, todas as tentativas bem-intencionadas de lidar com este terrível problema são, como seus iniciadores admitem desesperadamente, fúteis. E fúteis permanecerão enquanto durar o sistema de produção que, criando uma população trabalhadora excedente, cria, com isso, homens criminosos e mulheres que são literal e infelizmente abandonadas. Livremo-nos disso, do sistema capitalista de produção, dizem os socialistas, e a prostituição acabará.

Isso nos leva ao nosso último ponto. O que nós, socialistas, desejamos? O que esperamos? O que é isso de que temos tanta certeza quanto do raiar do sol de cada dia? Quais são as mudanças evolutivas na sociedade que acreditamos já estarem próximas? E quais são as mudanças na condição da mulher que antecipamos como consequência disso? Permitam-nos negar qualquer intenção profética. Aquela ou aquele que, refletindo sobre uma série de fenômenos observados, vê o inevitável evento ao qual eles levam não é profeta. Uma pessoa não pode profetizar nada além daquilo que tem o direito de apostar quanto a uma certeza. Para nós, parece claro que, como na Inglaterra, a sociedade germânica, cuja base era o proprietário de terra livre, deu lugar ao sistema feudal, e este ao capitalista, e que este último, não mais eterno que seus antecessores, dará lugar ao sistema socialista; que, como a escravidão passou para a servidão e a servidão para a escravidão salarial de hoje, esta última passará para a condição em que todos os meios de produção não pertencerão nem ao dono de escravos, nem ao senhor do servo, nem ao patrão do escravo-assalariado, o capitalista, mas à comunidade como um todo. Com o risco de provocar o riso habitual e a zombaria, confessamos que não estamos mais preparados para entrar nos pormenores desse trabalho socialista da sociedade do que os primeiros capitalistas estiveram para entrar nos detalhes do sistema que fundaram. Nada é mais comum, nada é mais injusto, nada é mais indicativo de escassa compreensão do que o clamor vulgar por detalhes exatos de como as coisas serão sob a condição social para a qual acreditamos que o mundo está se movendo. Nenhuma exposição de qualquer nova grande verdade, ninguém dentre seus seguidores pode esperar descobrir toda a verdade em suas últimas ramificações. Isso teria sido pensado daqueles que rejeitaram a descoberta da gravitação de Newton por ele não ter, com sua aplicação, descoberto Netuno? Ou daqueles que rejeitaram a teoria darwiniana da Seleção Natural porque o instinto apresentava certas dificuldades? No entanto, é precisamente isso que os medíocres opositores do socialismo fazem; sempre com uma calma vazia, ignorando o fato de que, para cada dificuldade ou miséria que eles supõem surgir da socialização dos meios de produção uma muito pior é realmente existente na sociedade putrescente de hoje.

O que é isso que temos certeza de que está a caminho? Seguimos por rumos tão distantes dos de Bebel ao longo de nossas próprias linhas de pensamento, depois de tomarmos o caminho geral em que seu trabalho sugestivo nos colocou, que, para responder a esta pergunta, voltamos com prazer e gratidão a ele: “Uma sociedade em que todos os meios de produção são propriedade da comunidade, uma sociedade que reconhece a total igualdade de todas e todos sem distinção de sexo, que prevê a aplicação de todo tipo de aperfeiçoamento ou descoberta técnica e científica, que inscreve como trabalhadoras e trabalhadores todas as pessoas que atualmente são improdutivas, ou cuja atividade assume uma forma prejudicial, os ociosos e os vagantes, e que, reduzindo o período de trabalho necessário para sua manutenção, eleva a condição mental e física de todos os seus membros ao mais alto patamar alcançável.”

Não escondemos de nós nem de nossos antagonistas que o primeiro passo para isso é a desapropriação de toda propriedade privada da terra e de todos os outros meios de produção. Com isso, haveria a abolição do Estado tal como ele se apresenta agora. Nenhuma confusão quanto aos nossos objetivos é mais comum do que aquela que leva pessoas de pensamento vago a imaginar que as mudanças que desejamos, assim como as condições para que elas possam existir, possam ocorrer sob um regime de Estado como o de hoje. O Estado é agora uma organização de forças para a manutenção das atuais condições de propriedade e de regramento social. Seus representantes são alguns homens de classe média e alta disputando lugares que rendem salários anormais. O Estado sob o socialismo, se de fato uma palavra de lastros históricos tão feios for mantida, será a capacidade organizada de uma comunidade de trabalhadoras e trabalhadores. Suas funcionárias e seus funcionários não serão melhores nem piores do que suas companheiras e seus companheiros. O divórcio entre arte e trabalho, o antagonismo entre o trabalho mental e o manual, que entristece a alma dos artistas, sem que eles saibam, na maioria das vezes, a causa econômica de sua dor, desaparecerá.

E agora vem a questão de como a futura posição da mulher e, portanto, da raça, será afetada por tudo isso. De algumas coisas podemos ter certeza. A evolução da sociedade conduzirá à melhor solução, embora cada um de nós possa ter sua própria ideia sobre cada ponto em particular. Claramente, haverá igualdade para todas e todos, sem distinção de sexo. Assim, a mulher será independente: terá acesso à educação e a todas as outras oportunidades que se apresentam ao homem. Como ele, ela, se tiver a mente e o corpo sãos (e como o número de mulheres assim crescerá!), receberá uma, duas ou três horas de trabalho social para suprir as necessidades da comunidade e, portanto, as suas próprias. Depois disso, ela estará livre para a arte ou a ciência, para o ensino ou a escrita, ou para todo tipo de divertimento. A prostituição terá desaparecido com as condições econômicas que a produziram e fizeram dela, neste momento, uma necessidade.

Se a monogamia ou a poligamia prevalecerá no estado socialista é um detalhe sobre o qual só se pode falar como indivíduo. A questão é extensa demais para ser resolvida em meio às névoas e miasmas do sistema capitalista. Pessoalmente, acreditamos que a monogamia sairá vitoriosa. Há aproximadamente o mesmo número de homens e mulheres, e o ideal mais elevado parece ser a completa, harmoniosa e duradoura combinação de duas vidas humanas. Tal ideal, quase nunca alcançável hoje, precisa de pelo menos quatro coisas. São elas: amor, respeito, semelhança intelectual e domínio sobre as necessidades da vida. Cada uma das quatro é muito mais possível sob o sistema para o qual nos movemos do que neste em que agora existe o nosso ser.A última é absolutamente garantida a todos. Como Ibsen faz Helmer dizer a Nora: “Algo como um constrangimento, um mal-estar sombrio se introduz em toda casa erigida sobre dívidas e empréstimos.”[16] Mas empréstimos e dívidas, quando se é um membro da comunidade e não um sujeito isolado lutando apenas com suas próprias forças, podem nunca acontecer. Semelhança intelectual. A mesma educação para homens e mulheres; colocar os dois lado a lado, até que finalmente se deem as mãos, garantirá um maior grau disso. Esse inaceitável produto do capitalismo, a jovem de  In Memoriam de Tennyson[17], com seu “Eu não consigo entender, eu amo”, será um mito. Cada uma e cada um terá aprendido que não pode haver amor sem compreensão. E o amor e o respeito que desejam, e que se perdem hoje por causa de pecados e deficiências, produtos do sistema comercial da sociedade, poderão encontrar muito mais facilmente, e quase nunca desaparecerão. O contrato entre mulher e homem será de natureza puramente privada, sem a intervenção de qualquer funcionário público. A mulher não será mais escrava do homem, mas sua igual. Não haverá necessidade de divórcio.

Se estamos certos ou não quanto à monogamia como a melhor forma da sociedade, não sabemos, mas podemos ter certeza de que a melhor forma será escolhida, e por sabedorias mais maduras e prósperas do que a nossa. Podemos ter igualmente certeza de que a escolha não serão os casamentos arranjados[18], com sua poligamia unilateral, desta nossa triste época. Acima de tudo, podemos ter certeza de que duas grandes maldições que ajudam, junto a outras, a arruinar as relações entre mulher e homem terão passado. Essas maldições são o tratamento de mulheres e homens como seres diferentes e a falta de verdade. Não haverá mais uma lei para a mulher e outra para o homem. Se a sociedade vindoura, como a sociedade europeia atual, considerar que é certo que o homem tenha amantes e esposa, podemos ter certeza de que liberdade semelhante será estendida às mulheres. Não haverá o disfarce hediondo, a mentira constante que faz da vida doméstica de quase todas as nossas casas inglesas uma hipocrisia organizada. O que quer que seja que a opinião amadurecida e deliberada da comunidade considere como o melhor será realizado de forma justa, abertamente. Marido e esposa serão capazes disso juntos, mas hoje são poucos os que podem, olhando dentro dos olhos um do outro, ver o coração de sua companheira, de seu companheiro. Particularmente, acreditamos que a união de um homem com uma mulher será o melhor para todos, e que estes encontrarão, cada um no coração do outro, o que está nos olhos: sua própria imagem.


[1]  Posteriormente publicado como Die Frau und der Sozialismus  [A Mulher e o Socialismo] (1879). O livro de Bebel foi a primeira grande contribuição teórica da questão das mulheres com enfoque marxista. (Nota das Tradutoras, assim como todas as outras notas que constam desta tradução)

[2] August Bebel (1840-1913) foi um dos fundadores do Partido Social-Democrata Alemão (SPD).

[3] América, aqui, refere-se aos Estados Unidos da América.

[4] A obra Da proficiência e o avanço do conhecimento divino e humano foi publicada por Francis Bacon em 1605.

[5] Promulgada em 1864 e suspensa em 1886 (ano de publicação do texto de Eleanor e Aveling), a Lei foi introduzida como tentativa de regular a prostituição e controlar o contágio por doenças sexualmente transmissíveis. Na prática, a lei obrigava mulheres suspeitas de prostituição a realizarem exames médicos invasivos sob custódia de polícia, podendo ser presas por até três meses caso se recusassem a fazê-los.

[6] Raça, aqui, refere-se ao conjunto dos seres humanos.

[7] Passagem da peça A Tempestade, de William Shakespeare, na tradução de Barbara Heliodora (Rio de Janeiro> Nova Fronteira, 2011).

[8] Passagem bíblica: Gênesis, capítulo 3, versículo 6. Tradução extraída da décima segunda edição da Bíblia Sagrada e realizada pela Congregação Nacional dos Bispos do Brasil (Brasília: Edições CNBB, s/d).

[9] Primeira novela publicada, em 1883, pelo escritor sul-africano Olive Shreiner (sob o pseudônimo de Ralph Iron).

[10] Reivindicação dos direitos da mulher foi escrito por Mary Wollstonecraft (1759-1797) em 1792. Uma edição desse texto foi publicada no Brasil pela Boitempo Editorial (São Paulo, 2016), na tradução de Ivania Pocinho Motta.

[11] John Cordy Jeaffreson (1831-1901), escritor inglês.

[12] Trecho da peça As You Like It de William Shakespeare. Usamos aqui a tradução de Rafael Raffaelli, publicada pela Editora UFSC sob o título Do jeito que você gosta (Florianópolis, 2011, p. 89).

[13] Demônio da tradição cristã e cabalística ao qual se faziam sacrifícios.

[14] Obra poética de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), escrita em 1813.

[15] Jornal fundado em Londres em 1865.

[16] Usamos aqui a tradução feita por Maria Cristina Guimarães Cupertino da peça Casa de bonecas de Henrik Ibsen (São Paulo: Veredas, 2007, p. 9).

[17] Alfred Tennyson (1809-1892), poeta inglês.

[18] No original “barter-marriages”: casamento simultâneo entre dois pares de irmã-irmão de famílias diferentes.  Quando um homem se casa com uma mulher, o irmão dela se casa forçosamente com a irmã dele.

* Helena Barbosa é tradutora e advogada indigenista. É mestra em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo (USP) e tem experiência nos seguintes temas: história da tradução e da interpretação, tradução feminista e direitos indígenas. Suas pesquisas atuais focam no estudo da história e da historiografia de tradutoras e intérpretes ameríndias, bem como de artes poéticas ameríndias.

Maria Teresa Mhereb é Cientista Social formada pela Unesp e bacharela em Letras pela USP, onde atualmente é mestranda em Estudos da Tradução. Sua pesquisa, centrada no conceito de divisão sexual do trabalho, conjuga a Sociologia, os Estudos da Tradução e os Estudos de Gênero. Como tradutora, dedica-se especialmente a textos ligados à sociologia, política e meio ambiente.

Maíra “Mee” Silva é marxista, feminista, lésbica, estudante da Teoria da Reprodução Social, atuante no movimento social.

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