posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar

Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar, de Fernanda Young

Carla Vreche[1]

O livro de Fernanda Young conta a história da liberdade de uma jovem que, crescida no seio de uma família tradicional religiosa, descobre sua sexualidade. Escrito quando a autora ainda tinha 17 anos, a obra recém publicada questiona a construção da Sagrada Família. A filha que identifica os laços autoritários e abusivos dentro de casa e decide, à revelia disso, viver sua própria liberdade. Por isso ela é tida como louca, e quase como perigosa. Algo a ser mantido distante, alguém a ser escondida. Prometida ao casamento santo, a personagem passa a obra experenciando outros caminhos.  

“Posso pedir perdão, só não posso deixar de pecar” retoma histórias comuns a jovens e mulheres adultas rodeadas de tabus religiosos sob seus corpos. A obra é mais uma peça da construção literária da autora que é marcada por mulheres livres. Essa marca ficou registrada também no monólogo protagonizado pela atriz Maria Ribeiro, com o nome de “Pós-F”[2], que estreou no último dia 12 de setembro no Teatro Porto Seguro Online. A partir da experiência da própria Fernanda, a peça sublinhou a delicadeza abstrata da autora traçando críticas a alguns pontos presentes em seu último livro. Fernanda foi uma mulher-autora que resistiu a levantar o debate sob a perspectiva do feminismo, como ela o entendia, e seu livro “Pós-F” representa um pouco isso. Na sua visão, por exemplo, falta ao feminismo olhar os impactos do patriarcado para os homens[3].

A despeito das críticas que podem ser feitas a sua obra, é impetuoso pontuar a importância da Fernanda para a construção e representação de personagens mulheres livres na literatura e TV brasileiras. Suas personagens questionaram a posição de passividade, submissão e opressão. Construindo uma linha ampla e contínua de pensamento, dada a construção das personagens mulheres em seus textos, pode-se dizer que a primeira obra de Fernanda e seu último livro apontam algumas respostas para a frase de Madonna tatuada em seu corpo: “Do you know what it feels like in this world for a girl?”.


[1] Internacionalista e mestra em Sociologia, doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e bolsista pela Fapesp. Membra da equipe editorial do Boletim Lua Nova do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC). 

[2] Ingressos para a peça podem ser encontrados em: https://checkout.tudus.com.br/teatro-porto-seguro-pos-f-/selecione-seus-ingressos. A última seção aconteceu no dia 14 de outubro.

[3] Entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=o52btBX7lww&ab_channel=DaniellaZupo.

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