gênero, excesso e a possibilidade da vida não-alienada

Mikey Elster[1]

Traduzido por Ana Flávia Bádue

[Versão original em inglês disponível aqui | Original English version available here]

O fato de gênero ser uma categoria social, política e relacional traz duas implicações para a compreensão da identidade de gênero que discordam entre si. Por um lado, a identidade de gênero é normalmente vista como parte dos sentimentos pessoais e individuais de uma pessoa em relação a outras. Por outro lado, a natureza política e social do gênero requer um processo de autenticação, reconhecimento, ou outra forma de inteligibilidade mútua – o que significa que a identidade de gênero é tanto sobre as marcas subjetivas que xs outrxs deixam em nós, quanto é uma noção individual. Conversando com uma mulher chamada Martha sobre sux filhx transgênero, chamadx Jo, ela tocou no âmago da questão. Jo foi designada pelo sexo feminino ao nascer e atualmente se identifica como queer, mas também já se identificou como menino. Logo no início da transição, um psiquiatra aplicou-lhe um questionário com dez questões para fazer um diagnóstico. A partir das respostas de Jo, o médico concluiu que Jo não era transgênero e não poderia receber bloqueadores hormonais de puberdade. Quando se deparou com o “fracasso” do diagnóstico de Jo, a mãe explicou que todo o processo parecia ser ridículo: “Eu poderia ter tido um filho transgênero, que era gay, que gostaria de figurar como menina, mas que se sentia um menino por dentro. Mas por causa desse negócio estúpido, antifeminista [referindo-se aos testes diagnósticos e ao binarismo de gênero], ele não pôde ser isso e eu não sei o que aconteceu”.

Em termos político-econômicos, o capital produz e reproduz gênero como parte de um projeto mais amplo de reproduzir a si mesmo e as relações sociais. Ao se deparar com uma subjetividade de gênero que excedia os andaimes ideológicos do capital, o psiquiatra em questão agiu como um gatekeeper. Mas esse processo nunca é completamente possível, bem sucedido ou totalizante. Martha e Jo eventualmente encontraram um psiquiatra que apoiou o caso, e além disso, a interpretação dela sobre a subjetividade de sux filhx não é ilegível. A princípio ela pode soar confusa para algumas pessoas, e pode não ter satisfeito o primeiro psiquiatra, mas sua fala dá sentido à identidade de Jo usando uma linguagem e termos completamente compreensíveis. Em sua explicação, Martha usa a linguagem normativa para expressar aquilo que vai além do escopo capitalista de produção e reprodução. A noção de gênero é destruída por meio dos excessos, os quais podem, por sua vez, ser produtivos em um sentido não-alienado. Em todo caso, responder a interpelação envolve vários graus de obediência e desobediência, incluindo respostas que são ao mesmo tempo obedientes e não alienantes, legíveis e além dos interesses do capital.

Nos próximos parágrafos, pretendo articular várias linhas de teorias de gênero – antropologia marxista-feminista, teoria queer e estudos trans – a fim de produzir uma teoria que seja materialista, e ao mesmo tempo não seja reducionista ou desdenhosa. Materialista para manter a precisão analítica necessária para fazer afirmações sobre fenômenos historica e geograficamente específicos; e cautelosa pois as relações sociais e seus efeitos residuais nos indivíduos nem sempre se reduzem ao material, mesmo que neles estejam profundamente imbricados.

O ponto de partida teórico deste ensaio é a questão que Kay Gabriel levanta no fim de “Gender as an accumulation strategy”: “… o que seria do gênero se ele funcionasse como uma fonte de prazer desalienado e não como uma estratégia de acumulação?” Este ensaio se parte do argumento que

Gênero no capital assume a forma de uma estratégia de acumulação, um andaime ideológico que sustenta a divisão desigual do trabalho, delimita práticas predatórias e de espoliação, e condiciona formas particulares de exploração, inclusive e especialmente na forma de trabalho reprodutivo mal ou não pago
Gabriel, 2020 – grifo dx autorx.

A partir desse ponto, argumento que gênero é um espaço em que disputa-se o valor social e o controle do significado do “excesso” (que não é, de forma alguma, de exclusividade do material). Eu uso o termo “excesso” para descrever gênero por diversas razões. Primeiramente, eu quero chamar a atenção para a estética camp, que é “extra”, e para a paródica extravagância da cultura gay e da teoria queer por ela inspiradas. Isso remete a um debate feito em um painel incrível na conferência da American Anthropological Association em 2019 (Hughes, J. et al 2019), em que fomos convidados a revisar a teoria queer à luz do capital. Eu também preciso deixar claro que uso o termo queer nesse ensaio com total consciência de que ele é um significante vazio e destituído de sentidos. Uso esse termo de maneira mais estrita do que normalmente aparece por aí, me baseando em Sedgwick (1993), para indicar algo como uma experiência centrada na vida de quem tem desejos por pessoas do mesmo sexo e cuja expressão sexual e de gênero seja não normativa, ou seja, cuja expressão esteja aberta a reformulações que desestabilizem suas próprias categorias. Em segundo lugar, eu uso excesso quase que literalmente para me referir aos lugares nos quais pessoas encontram sentidos e significados que sejam compreensíveis dentro das fronteiras da ideologia, mas que excedam ou que sejam reorientados para além das funções de reproduzir relações sociais desiguais. Por fim, mas igualmente importante, eu foco não apenas na crítica ao capital, mas também na análise dos pontos críticos onde este não consegue em ser totalizante, onde a produtividade humana excede, escapa ou evade os interesses capitalistas.

Escrevo este ensaio como uma pessoa queer atualmente engajada com uma pesquisa etnográfica sobre pediatria transgênera e sobre redes sociais e de apoio a jovens trans na cidade de Nova Iorque. Embora este ensaio não seja etnográfico no sentido de que meu argumento não deriva diretamente dos dados da minha pesquisa, meus pensamentos estão influenciados pelo meu trabalho num local e em um momento específicos. O ímpeto empírico e pessoal que motiva este ensaio vem do meu compromisso em situar as reivindicações dxs participantes da minha pesquisa a respeito de seu self [selfhood] dentro de um contexto social e político.  Mais especificamente, olho para as reivindicações de que gênero é algo pessoal e político, individualista mas social, resultado de uma socialização dentro de um mundo sexista e também uma profunda autoexpressão pessoal. Eu pretendo mostrar como, apesar dessas reivindicações serem contraditórias entre si, elas não são mutuamente excludentes. Ao mesmo tempo, eu pretendo evitar o recurso às noções liberais de uma escolha racional dos sujeitos.

Butler e o “pré-social”

O que é gênero “na análise final”, ou “em última instância”? Como afirma Kay Gabriel (2020), “gênero pertence à esfera da ideologia – não no sentido pejorativo de falsa consciência, mas no sentido descritivo de uma representação conceitual das relações sociais”. As relações sociais que o gênero abstrai são reais e tem consequências materiais. Mas gênero, em si mesmo, é uma abstração de uma relação social. Estudar gênero é uma questão de se envolver com algo que já foi abstraído, que é socialmente mediado, e que já está em movimento. Em resumo, nós temos muito pouco, ou nenhum, acesso empírico acesso à “última instância”, à “análise final” ou ao “pré-social” a partir do qual a ideologia de gênero se erige. Não se trata de concordar com epistemologia pós-estruturalista, mas de um reconhecer que é errôneo tentar localizar potenciais espaços de agência como exteriores à força ideológica de gênero. A ideia que poderíamos localizar a fonte pré-social da desigualdade de gênero, e de que uma falsa consciência impediria a classe trabalhadora de perceber essa fonte, implica em admitir que a ideologia tem um poder de constituir o que é pensável. Parece ser simplesmente mais parcimonioso assumir que nossas ferramentas conceituais estão sujeitas a essa influência, enquanto tentamos ao mesmo tempo pensar através delas.

Mesmo com as diversas críticas direcionadas a Judith Butler, seu livro Corpos que Importam continua sendo uma valiosa tentativa de teorizar gênero sem recorrer a um sujeito sem gênero pré-social. Para Butler, ser um sujeito é já ter gênero.

Se eu fosse argumentar que gênero é performativo, isso poderia significar que eu acredito que alguém acorda de manhã, explora seu armário ou qualquer outro espaço, escolhe seu gênero, veste-se daquele gênero por um dia, e devolve a vestimenta ao armário à noite. Esse sujeito intencional e instrumental, aquele que decide sobre gênero (…) falha ao perceber que sua existência já é decidida por um gênero.
Butler, 1995, p. IX.

Ainda assim, o projeto de Butler continua sendo teorizar gênero como um lugar potencial de agência e de luta. Mais adiante no livro, enquanto discute o filme Paris está queimando, Butler recorre ao conceito de interpelação de Althusser para abrir caminho para a agência. De maneira breve, Althusser teoriza a lei como aquilo que funciona unilateralmente sobre o sujeito. Um policial grita “ei você!” e o sujeito responde, então se tornando sujeito da lei e entrando em uma relação social determinada por condições que precedem sua existência como sujeito. O interesse de Butler é encontrar as falhas que podem ocorrer no processo de evocação do sujeito. “Essa lei pode não somente ser recusada”, ela afirma,

como também pode ser rompida, forçada a uma rearticulação que coloca em questão as forças monoteísticas de sua operação (…) a recusa da lei pode ser produzida na forma de uma paródica conformidade que sutilmente questiona a legitimidade do comando (…) [A lei] cria mais do que aquilo que ela sempre pretendeu, significando em excesso qualquer referente intencionalmente produzido
Butler, 1995, p. 82.

Nesse sentido, gênero é iniciado pela “lei”, uma forma abreviada para se referir à teia de relações sociais e significações que precede qualquer sujeito e evoca uma pessoa como homem, mulher, criança, etc. A resposta a esse processo de interpelação leva à formação de gênero do sujeito. Uma observação importante para o que vem a seguir: a lei sempre produz mais do que ela pretende, mais do que ela pode operar ou distribuir.

Para que a interpelação funcione nos termos previstos por Butler, é preciso que se reconheça a materialidade inerente à ideologia. Quando o Estado chama uma pessoa de mulher ou homem, esposo ou esposa, filho ou filha, etc., isso ocorre por meio do recurso a um sujeito idealizado que não existe. Apenas por meio de uma resposta corporificada e material a essa interpelação que o gênero passa a existir enquanto alguém o habita. Portanto, toda performance de gênero é um fracasso em uma medida ou em outra – não apenas a alteridade radical da subjetividade queer. Esse é o momento da performatividade. Não a expressão agenciada e autodirigida de um ser verdadeiro ou transcendente, mas a resposta que uma pessoa dá à complexa maquinação de condições materiais que dão origem ao aparato ideológico que tenta convocar alguém a ser. A “coisa” do gênero é profundamente corporificada – ou material – nesse sentido, mas a teoria da performatividade de Butler enfatiza que essas respostas são historicamente contingentes, variáveis e, portanto, sujeitas a transformações radicais.

Análogo à produção capitalista, o “excesso” da significação do gênero criado pela lei, e todas as relações sociais que coalescem com ela, é um lugar potencial de luta, assim como a mais-valia da produção de mercadorias, e todas as relações por ela acionadas, é um local de luta de classes. 

Antropologia Marxista-feminista

A tradição marxista feminista na antropologia levantou algumas das mais incisivas críticas ao capitalismo e ao sistema sexo-gênero. Estou pensando, em particular, no famoso “O Tráfico de Mulheres: notas sobre a ‘economia política’ do sexo”, de Gayle Rubin, no qual a autora explica como a construção das diferenças de gênero por meio do parentesco, do casamento e da divisão sexual do trabalho dão origem a um sistema sexo-gênero que persiste além, e junto de, sistemas políticos, sociais e econômicos. Rubin habilmente navega por um labirinto de teorias etnográficas, psicanalíticas e marxistas para construir seu argumento, e um dos pontos centrais do texto é que sexo e gênero são parte de sistemas sociais mais abrangentes: “os sistemas sexuais não podem ser entendidos de forma isolada. Uma análise abrangente das mulheres numa única sociedade, ou ao longo da história, deve levar tudo em conta: a evolução das formas como as mulheres se transformam em mercadoria, sistemas de posse da terra, acordos políticos, tecnologia de subsistência, etc.” (1975, p. 209 – grifos da autora).

Depois de “Tráfico de Mulheres”, apareceram diversas análises etnográficas bastante sólidas sobre o que poderia ser chamado de economia política do sexo, e que tentam dar conta da totalidade. Não apenas da formação do sujeito, mas de como responsabilidades econômicas, direitos e fardos mudam conforme fatores de gênero, raça, e em resposta aos desenvolvimentos do capitalismo tardio. Trabalhos recentes deram especial atenção à reprodução social. Como afirma Cindi Katz,

A reprodução social da força de trabalho migrante é executada nos países de origem dessas pessoas. Quando elas passam a trabalhar em outro lugar, há uma transferência direta de riqueza dos países pobres para os países ricos. A produção de capital variável num local e usado em outro, é tanto transferência de capital, quanto extração de matéria prima, de dívidas e similares
Katz, 2001, p. 710.

Ademais, o foco na reprodução social por parte de intelectuais feministas não implica em uma convergência do tipo “produção está para reprodução assim como o masculino está para o feminino”. Antes, trata-se do fato que, a despeito da tensão considerável que o capitalismo exerceu sobre as noções tradicionais de “família” e outras práticas culturais de gênero, ele ainda produz a divisão sexual do trabalho e as desigualdades de gênero – e ainda com efeitos racializantes. Essa discussão também aparece nos trabalhos recentes sobre a crise financeira de 2008 (Rankin 2013) e nos estudos preliminares a respeito dos efeitos da crise do Covid-19. Muitxs acadêmicxs examinaram como, em diversos contextos,  o aumento da demanda por força de trabalho resultou em mais mulheres de classe média do chamado “primeiro mundo” integrando a força de trabalho assalariada, enquanto mulheres migrantes e de classes mais baixas acabaram por tornar-se maioria no trabalho assalariado ligado às tarefas reprodutivas (Colen, 2006; Collins e Mayer, 2010). A sexualidade também passou por mudanças, como é exemplificado na etnografia de Suzana Maia (2012), que investiga como classe, branquitude e desejo se entrelaçam aos circuitos econômicos por onde dançarinas brasileiras de classe média em Nova Iorque navegam.

Nesta análise, produção e reprodução são categorias co-constitutivas que normalmente se contradizem e se misturam. Nesse sentido, a produção de uma identidade de gênero é um componente central para o trabalho reprodutivo (Rubin, 1975, 167). Isso nos leva à chamada crise da reprodução social. As reformas progressistas que “liberaram” as mulheres para integrarem a força de trabalho assalariado foram acompanhadas pela estagnação dos salários e pelo crescente custo de vida. O resultado é uma pressão enorme sobre a reprodução social que faz com que a classe trabalhadora acabe carregando esse fardo. Quem trabalha com cuidado de crianças, ou com serviços de limpeza e higiene, também precisa reproduzir a si mesmx e a sua família, além de ter que fazer o trabalho reprodutivo de outrxs como trabalhadorxs assalariadxs. A lei prevê igualdade de salários para mulheres e homens, enquanto efeitos de gênero e de raça se intensificam (Cf. Mullings, 2005). Isso produz demandas de gênero que são impossíveis de serem atendidas, ocasionando, portanto, um fracasso nas respostas às evocações e interpelações que definem gênero. Uma “boa mãe”, por exemplo, deve trabalhar em tempo integral para demonstrar sua independência e também priorizar o bem estar de suas crianças. Consequentemente, o gênero que poderia ser atualizado se descola do projeto de reprodução do capital. Torna-se um sujeito de gênero apesar de isso ser impossível de se realizar completamente.

Tudo isso para dizer que identidade de gênero e desejos de gênero, incluindo desejos corporais de alterar a aparência medicamente, de se vestir de certa maneira, de falar com determinadas inflexões, etc, não são redutíveis ao seu papel nas relações de reprodução social. Também não são diretamente extraídos dali, mas sim assumem uma posição semiautônoma que pode produzir um excesso de sentidos. O capitalismo é definido por sua incompletude, sua constante necessidade de se expandir e crescer. Sempre se produz mais do que se pode consumir ou do que se pode distribuir, apenas para dar cabo de se acumular e de, no futuro, se espoliar.

Excesso de gênero

As responsáveis por um jovem menino trans chamado Ben me contaram sobre a experiência dele num acampamento de verão. Todas as crianças no acampamento tinham que projetar e criar uma capa para um desfile de moda. Ben ama imagens de fogo, e suas responsáveis me explicaram que ele gosta de usar palavras como “extravagante” [flamboyant] para designar aquilo que é relacionado com fogo. Naturalmente, durante o evento, ele desfilou na passarela dizendo: “Sou extravagante! Estou pegando fogo!” [“I’m flamboyant! I’m on fire”]. O complexo deslize entre “extravagante” e “pegar fogo” não foi intencional da parte de Ben, mas foi objeto de divertimento e alegria para suas mães.

Eve Sedgwick sugere que a “malha aberta de possibilidades” e os “excessos e lapsos” que emergem quando a identidade de uma pessoa não se encaixa com prescrições normativas são a principal faceta do que é queer (1993, p. 8). Devido à escassa representação explícita de pessoas queer nas artes e na literatura, Sedgwick argumenta que o prazer queer sempre residiu na leitura das entrelinhas de um trabalho, na procura por vazios a serem preenchidos pelos sentidos desejados. De maneira análoga, em termos político-econômicos podemos argumentar que até recentemente, e hoje com pouco sucesso, pessoas LGBT eram excluídas de processos econômicos por meio de estigmatizações sociais. O queer normalmente representou um “excesso” à construção ideológica da família como central à vida econômica. Nos Estados Unidos atualmente, estima-se que 40% de jovens sem teto se identificam como LGBT. Excluídxs da unidade reprodutora que é a família, pessoas queer têm uma longa história de recriar seus próprios sistemas de sobrevivência, de parentesco e de criação de sentidos apesar de virem de um lugar de abjeção (cf. Weston, 1991).

Se esse ponto soa como uma celebração da agência do sujeito queer e sua posição de “fora” do capital como revolucionária, essa não é minha intenção. Pelo contrário, os excessos do capital podem ser expropriados e rearticulados. É próprio da ideologia capitalista condicionar seus foras. Enquanto Sedgwick visava identificar e explicar o caso específico de como o queer posiciona a si mesmo como excesso de significado, ela também identifica algo específico ao gênero, de forma mais ampla. Kay Gabriel propõe algo semelhante ao discutir a irascibilidade da libertação trans e da luta de classes:

Não-transexuais são também evocados enquanto sujeitos por operações ideológicas de gênero; a não-transição expressa também a força de um desejo. A patologização de desejos transexuais específicos marca e ressexualiza essas configurações de gênero de acordo com a força normativa da história da clínica. Os desejos transexuais não são nem maus nem bons, eles são reais
Gabriel, 2020.

O mesmo se passa com a subjetividade queer. Ela pode ser expropriada como fonte de prazer, como também pode ser reapropriada pelo capital. Considere, por exemplo, o contraste entre a Pride March em Nova Iorque em 2019, uma parada LGBT corporativa em que foi acompanhada pela polícia, e a March for Queer Liberation em 2020, que foi atacada pela polícia. A formação de subjetividade de gênero e sexual não é nem um caso de completa subjetivação, nem de agenciamento transcendente. Trata-se de um resultado processual da luta por controle e distribuição dos excessos. Lidas juntas, as políticas queer, trans e feministas estão focadas na luta pelo modo como o valor da significação generificada pode ser orientada para fins emancipatórios ou extraídas como outro recurso para a produção das estruturas ideológicas.

Implicações Políticas

É urgente reformularmos as análises de gênero devido a uma série de razões. Entre elas está o desconcertante reaparecimento de essencialismos biologizantes no senso comum. A direita reproduz sua homofobia, transfobia e misoginia, mas esse discurso também ecoa na esquerda. Feministas radicais trans excludentes [TERFs] ou feministas “críticas de gênero” são o alvo comum das críticas por se apoiarem em essencialismos biológicos, mas há algo aí que é mais pernicioso do que simplesmente excluir pessoas trans. Existe um debate crescente dentro da medicina trans sobre a possibilidade da identidade trans ser confirmada ou prevista biologicamente, normalmente baseado em algum tipo de avaliação que julga se a pessoa tem um cérebro “masculino” ou “feminino” (um conceito que já é suspeito por si só). Avaliações positivas e negativas desse projeto se encontram por todo o espectro político. Para a esquerda, é claramente conveniente transformar gênero em algo material e evitar reificar a escolha. Mas a conceitualização de gênero como algo que pode ser pré-social ou não-subjetivo abre espaço para a influência de instituições clínicas, psiquiátricas e médicas responsáveis pela patologização de pessoas trans, mulheres e, sobretudo, minorias étnicas [people of color]. Ao invés de oferecer um ponto de partida analítico, o crescente interesse em tratar identidade como algo biologicamente fundado é arriscado pois reforça o monopólio das instituições patriarcais sobre gênero. Sem contar que a forma idealizada dos gêneros “corretos” é racializada, o que potencialmente reforça a influência que a supremacia branca já exerce na medicalização dos corpos.

Não parece ser inadequado ver essa tendência da biologização como uma resposta à crise da reprodução social mencionada anteriormente. Dada a impossibilidade de atingir as demandas contraditórias de gênero como uma relação social, gênero volta a ser circunscrito a categorias biológicas estáveis. Poderíamos então nos resignar com a falsa consciência, uma identificação incorreta de teorias regressivas de gênero face às contradições capitalistas. Ao mesmo tempo, eu hesito em localizar questões de gênero, sexualidade, raça ou mesmo subjetividade estritamente dentro da esfera da “consciência”, pois corre-se o risco de ensilar gênero em um domínio imaterial que seja determinado exclusivamente pelo capital, quando na verdade a relação parece ser dialética.

Se, ao invés disso, gênero for uma luta pela significação que produz excessos os quais podem ser criativamente apropriados, então podemos tanto tomá-lo como uma estratégia do capital, quanto podemos reorientá-lo para criar uma vida menos alienada.

Bibliografia

Butler, Judith. 2011 [1995]. Bodies That Matter: On the Discursive Limits of Sex. 1 edition. Abingdon, Oxon ; New York, NY: Routledge.

Colen, Shellee. 2006. “‘Like a Mother to Them’: Stratified Reproductionand West Indian Childcare Workers and Employers in New York”. In Feminist Anthropology: A Reader, organizado por Ellen Lewin. Malden, MA ; Oxford: Wiley-Blackwell.

Collins, Jane L., e Victoria Mayer. 2010. Both Hands Tied: Welfare Reform and the Race to the Bottom in the Low-Wage Labor Market. Chicago ; London: University of Chicago Press.

Gabriel, Kay. 2020. “Gender as an Accumulation Strategy”. Invert Journal. https://invertjournal.org.uk/posts?view=articles&post=7106265#gender-as-accumulation-strategy.

Hughes, Jen and Ho, Karen (org). 2019. Noelle Stout, Margot Weiss, Scott Morgensen, Jen Hughes, and Kimberly Chong (presenters). Roundtable Discussion: “Toward a Critical Queer and Trans Economic Anthropology”. Annual Meetings of the American Anthropological Association, Vancouver, CA.

Katz, Cindi. 2001. “Vagabond Capitalism and the Necessity of Social Reproduction”. Antipode 33 (4): 709–28.

Maia, Suzana. 2012. Transnational Desires: Brazilian Erotic Dancers in New York. Vanderbilt University Press.

Mullings, Leith. 2005. “Resistance and Resilience: The Sojourner Syndrome and the Social Context of Reproduction in Cenral Harlem”. Transforming Anthropology 13 (2): 79–91.

 Rankin, Katharine N. 2013. “A Critical Geography of Poverty Finance”. Third World Quarterly 34 (4): 547–68.

Rubin, Gayle. 1975. “The Traffic in Women”. In Toward an Anthropology of Women, organizado por Rayna R. Reiter. New York: Monthly Review Press.

Sedgwick, Eve Kosofsky. 1993. Tendencies. Series Q. Durham: Duke University Press.

[1] Mikey Elster é doutorandx da CUNY Graduate Center em Nova Iorque. Seus interesses de pesquisa são antropologia médica, gênero e sexualidade na América do Norte. Sua pesquisa atual, tema de sua tese de doutorado, é sobre ética e políticas de cuidado com crianças e jovens transgênerxs.

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