um relicário da pandemia

imagem: arte de @ramondebh.

Isabella Meucci

Para a antropóloga Débora Diniz, o mundo pós-pandemia poderá ser mais alinhado aos valores feministas. Isso porque o cuidado, historicamente relegado às mulheres, adquiriu centralidade com a anomia social instaurada pelo coronavírus. As trabalhadoras mais precarizadas ficaram sem creches e escolas e tiveram, quando possível, que romper laços com outras mulheres responsáveis pelo cuidado de seus filhos, especialmente as avós. As mulheres da elite, por sua vez, cujo trabalho doméstico terceirizado garantia o sucesso profissional de muitas, viram-se às voltas com as múltiplas jornadas. Por isso, para a antropóloga, uma resposta à pandemia seria também uma resposta sobre a reprodução social da vida e passaria, necessariamente, pelas mulheres: “Não há salvação se não criarmos mecanismos coletivos de amparo”, afirma. Em busca de sentidos coletivos, da ordenação de um presente em desalinho e de formas de suportar o luto, Débora Diniz também criou no Instagram o perfil @reliquia.rum, onde juntamente com o artista plástico Ramon Navarro, conta todos os dias a história de mulheres que morreram pela pandemia e se somaram a uma multidão que já ultrapassa os 100 mil mortos. Às colagens de mulheres de outros tempos, somam-se biografias escavadas das notícias de jornais, formando um relicário no qual o luto privado se converte em coletivo – o que Débora chamou de “comunidade de luto”. Os textos do @reliquia.rum também se converteram em vozes a serem escutadas no @vozes.reliquia.rum, com a produção da cientista política Roberta Soromenho.

Além dos dois perfis do Instagram, confira também o texto “O relicário de uma pandemia”, de Débora Diniz para o El País e a entrevista da antropóloga para a Folha.

Débora Diniz é antropóloga pela Universidade de Brasília (UnB), onde também foi professora na Faculdade de Direito. Pesquisou sobre a epidemia do vírus zika no Brasil, tendo publicado o livro Zika: do sertão nordestino à ameaça global. É uma das fundadoras e coordenadoras do Anis – Instituo de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. Desde 2018 precisou sair do país em após sofrer ameaças por defender a descriminalização do aborto em audiência pública no Supremo Tribunal Feral (STF).

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