um feminismo decolonial

imagem: Editora Ubu.

Resenha de Um feminismo decolonial, de Françoise Vergès

Beatriz Rodrigues Sanchez[1]

Françoise Vergès, autora de “Um feminismo decolonial”, apesar de ter nascido em Paris, cresceu na ilha da Reunião, território francês no oceano Índico. A experiência de ter vivido em um dos chamados departamentos ultramarinos franceses pode ter sido um dos motivos para que ela desenvolvesse um olhar crítico em relação aos processos de colonização. A proposta de feminismo decolonial apresentada pela cientista política[2] coloca no centro da análise do capitalismo os corpos das mulheres racializadas, muitas delas trabalhadoras domésticas e funcionárias terceirizadas de empresas de limpeza em condições de trabalho precárias. Esses corpos exaustos seriam responsáveis por abrir as cidades todos os dias de madrugada para que as empresas e seus executivos possam exercer suas funções.

Em oposição aos corpos exaustos, estariam os corpos eficientes de homens e mulheres, majoritariamente brancos, que “na sequência de seus treinos, tomam um banho, comem uma torrada com abacate e bebem um suco detox antes de prosseguirem com suas atividades” (Vergès, 2020, p.19). Sem o trabalho das mulheres racializadas, no entanto, nenhuma dessas atividades seria possível e, de um ponto de vista mais ampliado, o capitalismo não teria se desenvolvido. É um paradoxo: ao mesmo tempo em que o trabalho dessas mulheres é invisibilizado, ele está na base de sustentação do capitalismo.

O adjetivo decolonial surge em oposição à ideia de descolonial com “s”. Apesar da diferença de uma letra, esses conceitos remetem a posicionamentos políticos e teóricos bastante distintos. A colonização foi um evento histórico datado e localizado, enquanto o colonialismo é um processo mais amplo que ainda está em curso. Nesse sentido, a descolonização nunca aconteceu, uma vez que o colonialismo ainda é uma forma central de dominação nas sociedades contemporâneas. A decolonização e, mais especificamente, o feminismo decolonial, ao invés de propor a superação da colonização, como sugere o termo “descolonial”, critica de forma radical as nossas heranças coloniais e defende uma sociedade em que todos os seres humanos se emancipem de todas as formas de opressão.

Um ponto central da crítica desenvolvida por Françoise Vergès está no que ela chama de “feminismo civilizatório”. Trata-se do feminismo branco e burguês que se alia ao capitalismo racial ao não apresentar uma alternativa estrutural às diversas formas de dominação, tais quais o colonialismo, o patriarcado e o racismo. Pelo contrário, ele pretende se inserir nessa lógica, em pautas como a demanda por mais mulheres nos cargos de alto comando das grandes empresas. O feminismo civilizatório valoriza as histórias individuais de ascensão econômica numa chave de leitura que flerta com a meritocracia. É um feminismo que tem como missão civilizar as mulheres do sul global, supostamente exploradas por seus maridos e pelas sociedades patriarcais onde vivem. A oposição ao uso do véu na França é um exemplo emblemático desse tipo de feminismo. As feministas civilizatórias francesas, sob o argumento de estarem salvando as mulheres muçulmanas do obscurantismo, acabaram defendendo posições xenófobas e islamofóbicas. O feminismo civilizatório, ao se pretender universal, ignora toda produção de conhecimento e formas de ativismo originadas nos lugares geográfica e simbolicamente periféricos e nas comunidades racializadas dos países do norte. É sintomático de nossos tempos que no Brasil também possamos encontrar esse tipo de “feminismo”.

Como caracteriza Vergès, o feminismo decolonial, por sua vez, tem origem no sul global e, a partir da reativação das lutas ancestrais, tanto das mulheres negras quanto de mulheres indígenas, questiona o capitalismo, o patriarcado, o racismo e o imperialismo. É possível concluir, a partir do livro, que não se trata de uma análise baseada na somatória de opressões, como algumas interpretações contemporâneas equivocadas do conceito de interseccionalidade pretendem afirmar. Não se trata tampouco de uma “nova onda” do feminismo, já que as lutas das mulheres do sul global não começaram agora. O feminismo decolonial apresenta uma forma complexa, estrutural e totalizante de entender as opressões, sem que haja uma separação rígida entre sociedade e natureza. Nas palavras da autora, a feminista decolonial sabe que “na luta há dificuldades, tensões, frustrações, mas também alegria, diversão, descobertas e ampliação de mundo” (Vergès, 2020, p.46).

Vergès argumenta que as feministas civilizatórias que ignoram a existência do capitalismo racial acabam sendo cúmplices dele. A ausência de uma crítica estrutural da sociedade abriu caminho para que governos autoritários de extrema direita ganhassem força ao redor do mundo. No caso brasileiro, a cientista política defende que essa é uma das lições a serem tiradas das eleições de 2018, que tiveram como resultado a eleição de:

“um homem branco apoiado por grandes proprietários de terra, pelo mundo dos negócios e por Igrejas evangélicas; um homem que declarou abertamente sua misoginia, sua homofobia, sua negrofobia, seu desprezo pelos povos indígenas, sua vontade de vender o Brasil ao melhor pagador, de violar as leis sociais voltadas às classes mais pobres e as leis de proteção à natureza, de voltar atrás nos acordos assinados com povos indígenas, e tudo isso alguns meses após o assassinato da vereadora queer e negra Marielle Franco.” (Vergès, 2020, p. 38)

O conflito entre o feminismo civilizatório e o feminismo decolonial está expresso nas diferenças de interpretação que cada um deles apresenta sobre a realidade social. Enquanto o primeiro defende uma abordagem anti-discriminatória, o segundo vai além e defende uma postura revolucionária. A abordagem revolucionária, de acordo com a autora, não rejeita a luta por reformas, mas questiona a reivindicação por oportunidades iguais no mercado de trabalho e por políticas de microcrédito em uma perspectiva individualista, na chave do “empoderamento”. Esse “objetivo modesto” pretende promover a entrada das mulheres (algumas delas) na ordem liberal, o que tem como consequência (nem sempre intencional) a perpetuação das desigualdades de classe, raça e gênero.

A autora também é bastante crítica à institucionalização dos movimentos feministas, ocorrida com maior intensidade a partir da década de 1970, tanto na Europa quanto na América Latina, tendo como marco a criação da “década da mulher” pela Organização das Nações Unidas (ONU)[3]. Ela defende que esse processo teve como consequência o esvaziamento do alcance político dos movimentos. Esse posicionamento de Vergès, contudo, não é um ponto pacífico entre as feministas. Há quem defenda que foi justamente a institucionalização dos feminismos que permitiu que eles tivessem maior alcance político, assegurando políticas públicas de combate à violência contra às mulheres, direitos trabalhistas, de participação política, entre outros.

Françoise Vergès também apresenta duras críticas ao livro “Sejamos todos feministas”, de autoria de Chimamanda Adichie, publicado em 2014 no Brasil. Essa obra obteve reconhecimento mundial, foi traduzida para diversos idiomas e teve o seu título estampado em camisetas de lojas de marca. Para a autora francesa, o feminismo inclusivo defendido no livro é, na verdade, inatingível. Além disso, o posicionamento da escritora nigeriana oculta a crítica feita pelos feminismos negros e decolonial ao universalismo e aos limites existentes para determinadas alianças políticas. O argumento de Adichie, na visão de Vergès, acaba psicologizando as demandas feministas, transformando o combate às opressões estruturais em uma questão de mudança de mentalidade, válida para todas as mulheres e todos os homens em todos os contextos e temporalidades.

A autora finaliza esse pequeno e potente livro com um chamado à recuperação da narrativa militante radical. A história oficial escrita pelo feminismo civilizatório pacificou figuras de ativistas como Rosa Parks e Angela Davis. Essa pacificação levou à construção de um feminismo bem comportado e palatável. Nessa perspectiva, e trazendo a análise para o caso brasileiro, não é de se espantar o fato de parte da fala (aquela que convinha) de Angela Davis, teórica e ativista feminista marxista, ter sido transmitida em rede nacional no Jornal Nacional da Rede Globo[4]. No lugar de adotar essa narrativa pacificadora, deveríamos resgatar as trajetórias de luta de mulheres escravizadas, quilombolas e indígenas, que revelam a existência de feminismos antirracistas e anticoloniais desde pelo menos o século XVI.

Por fim, como faz a autora na última página do livro, essa resenha se encerra com a citação de um trecho de um manifesto escrito coletivamente em junho de 2017, por artistas feministas, militantes e pela própria cientista política, que resume os anseios de um feminismo decolonial:

“Queremos pôr em prática um pensamento utópico, entendido como energia e força de insurreição, como presença e como convite para sonhos emancipatórios, como gesto de ruptura: ousar pensar para além do que se apresenta como “natural”, “pragmático”, “razoável”. Não queremos construir uma comunidade utópica, mas restaurar toda a sua força criativa em sonhos de insubmissão e resistência, justiça e liberdade, felicidade e bondade, amizade e encantamento.” (Vergès, 2020, p.136)

VERGÈS, Françoise. Um feminismo decolonial. São Paulo: Ubu Editora, 2020.


[1] Doutoranda e mestra em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É pesquisadora do Núcleo Democracia e Ação Coletiva do CEBRAP. E-mail: beatriz.rodrigues.sanchez@gmail.com.

[2] É importante ressaltar o fato de Fraçoise Vergès ser cientista política, já que no Brasil, a Ciência Política, dentre as Ciências Sociais, ainda é a disciplina mais resistente aos estudos feministas.

[3] No caso dos países latino-americanos essa institucionalização dos movimentos feministas ocorreu tardiamente porque por aqui vivíamos em regimes políticos ditatoriais. No Brasil, por exemplo, a criação do então Conselho Nacional da Mulher (CNM) ocorreu apenas em 1985.

[4] No dia 21/10/2019 a teórica e ativista Angela Davis conferiu uma palestra intitulada “A liberdade é uma luta constante”, no Auditório do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, para uma audiência lotada de milhares de pessoas. No mesmo dia, o Jornal Nacional noticiou o evento, retirando as partes mais radicais da fala de Davis.

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