morra, amor

Morra, amor, de Ariana Harwicz

Bruna Della Torre

Uma mulher deseja a morte de seu bebê e de seu marido numa cidade provinciana do interior da França. Ela quer incendiar sua casa e morrer no pântano. Morra, amor, publicado originalmente em 2012 e traduzido para o português em 2019, transfigura uma subjetividade estilhaçada pelo peso da vida familiar, da maternidade e pelo tédio da província. “Você nunca está cool, nunca está zen”, diz o marido diante da indisposição da esposa com os doces da padaria e o domingo medíocre. O romance da escritora argentina Ariana Harwicz se encaixa na tradição de escritoras como Sylvia Plath e Virginia Woolf ao explorar, por meio de uma narrativa fragmentária, desconexa e impressionista, por vezes quase surrealista, o pedágio psíquico cobrado pela integração à vida familiar burguesa e aos papéis designados às mulheres num mundo cuja precariedade material e de sentido tornam-se cada vez mais intensas. Morra, amor é a história de um colapso: da mãe, da esposa, da mulher, da família e, principalmente, da reprodução de uma vida que não encontra mais em si mesma o seu próprio fim. Virginia Woolf escreveu certa vez que “em todos esses séculos, as mulheres têm servido de espelho dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro do seu tamanho natural”; o livro de Ariana Harwicz tem o grande mérito de configurar a imagem por trás desse espelho. Boa leitura! 

HARHARWICZ, A. Morra, Amor. Tradução: Francesca Angiolillo. São Paulo: Instante, 2019.

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