a escola de frankfurt e as mulheres ou, por uma teoria crítica feminista

imagem: acervo pessoal Bruna Della Torre.

Bruna Della Torre

Uma vez compareci a um congresso de teoria crítica e uma filósofa, uma das maiores especialistas na obra de Theodor W. Adorno do mundo, abriu sua palestra com uma queixa a respeito do machismo nesse meio, que emulava a seguinte realidade, salvo raras exceções: “In our society women have two choices: you’re either fuckable or you’re invisible.” [Na nossa sociedade as mulheres têm duas escolhas: ou vocês são comíveis ou são invisíveis]. Ela citava a feminista Gail Dines. A expressão é bruta e não deixa de impressionar. A filósofa disse ainda que, ao longo da carreira, havia aprendido a parar de sorrir e a falar mais alto para ganhar o respeito intelectual que lhe cabia dentre os estudiosos da Escola de Frankfurt. Ou seja, um mero sorriso seria capaz de anular o reconhecimento que seis livros sobre Adorno teriam garantido, provavelmente, de forma vitalícia a qualquer pesquisador do gênero masculino em seu meio.

Talvez isso tenha a ver com o fato de que nenhuma mulher se destacou como membro consagrado da Escola de Frankfurt, embora o Instituto de Pesquisa Social tenha contado com a colaboração de algumas mulheres, como, por exemplo, Olga Lang, esposa de Wittfogel, participante esporádica do Instituto, Käthe Leichter, coordenadora de uma pesquisa sobre os jovens na Suíça que foi utilizada na elaboração dos Estudos sobre autoridade e família e por algumas mulheres que colaboraram com a Zeitschrift für Sozialforschung, revista do Instituto, especialmente na seção “resenhas”. Nas décadas de 1950 e 1960, quando o Instituto retornou à Alemanha após o exílio nos Estados Unidos, pesquisadoras como Monika Pressler trabalharam como assistentes em estudos importantes como o Gruppenexperiment. Os livros que se debruçam sobre a história da formação do Instituto – cuja importância é enorme e não pode deixar de ser reconhecida – tratam pouco do assunto e não buscam compreender e nem destacar essa ausência. Com a exceção de Stuart Jeffries, autor de Grand Hotel Abyss: The Lives of the Frankfurt School, que menciona essa questão de forma muito breve, autores consagrados como Martin Jay (A imaginação dialética) e Rolf Wiggershaus (A Escola de Frankfurt. História, desenvolvimento teórico, significação política) não abordam a questão. A ausência de pesquisadoras proeminentes parece a coisa mais normal do mundo. Gretel Adorno, esposa de Adorno, é praticamente ignorada apesar de ter colaborado com a escrita de A Dialética do Esclarecimento e de Towards a new manifesto, cuja elaboração se deu a partir das conversas entre Adorno e Horkheimer registradas por ela. Seu papel – seja corrigindo as provas ou a correspondência de Adorno, na co-organização dos Schriften de Walter Benjamin, entre outros – foi apagado, pouco reconhecido pelos membros do Instituto e pela historiografia.

A estudante mais conhecida da Escola de Frankfurt foi, com certeza, Angela Davis. Aluna de Adorno na Alemanha e de Marcuse nos EUA, Davis se tornou uma das maiores expoentes do feminismo marxista e até hoje depõe a favor da importância da teoria crítica, até mesmo de Adorno que a havia aconselhado a abandonar a militância. Davis afirma que Adorno estava mudando no final da vida. Em 1968, Adorno publicou o texto Notas sobre o conflito social, em coautoria com uma aluna, Ursula Jaerisch, o que constitui de fato uma exceção na sua carreira. A despeito disso, é possível afirmar que a Escola de Frankfurt não formou mulheres que tocassem o seu projeto inicial e que tenham tido destaque no Instituto.

Mas o que houve? Será que nas décadas de 1930 e 1940, período em que se consolidou a formação que tornou a Escola de Frankfurt conhecida, não havia mulheres tão inteligentes quanto Adorno, Horkheimer, Marcuse, Pollock, etc.? A Escola de Frankfurt era uma escola exclusiva para homens, como os internatos do século XIX? O que ocorreu com as estudantes que acompanharam os cursos desses pensadores?

Não é possível afirmar que esses autores estavam completamente alheios à dominação das mulheres. Muitos deles eram socialistas ou próximos de movimentos socialistas, nos quais essa questão era premente desde a década de 1930, especialmente na Alemanha. A grande babilônia que era Berlin tinha se tornado a capital da Europa na década de 1920 com a participação política, laboral e com a libertação sexual das mulheres promovida pela conjugação contraditória da crise econômica, da fundação da República de Weimar e dos diversos levantes socialistas do período. Berlin era a cidade revolucionada por Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo.  Foi nesse cenário que a maior parte dos pesquisadores em questão se formaram política e intelectualmente.

Além do contexto no qual estavam inseridas, as obras desses autores também não deixam dúvida em relação à consciência a respeito da dominação das mulheres. Na Dialética do Esclarecimento,as mulheres são associadas aos judeus na análise sobre o antissemitismo e, em Minima Moralia, Adorno afirma que “a mulher mesma já é o efeito do chicote” e que “a glorificação do caráter feminino envolve a humilhação de todas que o trazem”. Tanto num livro quanto noutro, o matrimônio é denunciado como instituição de dominação masculina. Apesar disso, a discussão a respeito da dominação de gênero é bastante limitada e se reduz, na maior parte das vezes, à comparação da figura da “prostituta” e da “esposa” como contrapontos complementares na sociedade burguesa. Em diversos escritos sobre a indústria cultural, Adorno também sugere que as mulheres são muito mais susceptíveis à reificação (as referências às donas de casa são inúmeras), o que sugere que subjetividade e masculinidade são associadas, e não problematiza a indústria cultural como forma de dominação de gênero – algo que é praticamente evidente. No final da vida, também Marcuse se aventurou a tratar do tema, numa palestra chamada “Marxismo e feminismo”, também frágil do ponto de vista teórico, na qual associava as virtudes “femininas”, como a sensibilidade, a não violência e a ternura, à revolução.

Da relação desses teóricos com suas estudantes, também não se sabe muito. A correspondência de Adorno mostra a sua tentativa de ultrapassar o seu papel de professor e orientador, conforme mostram, por exemplo, suas cartas a Elisabeth Lemke, publicadas pela própria, em tom de homenagem ao antigo orientador, mas que não deixam de demonstrar a atuação problemática de Adorno. Nos anos 1960, o conflito de Adorno com o movimento estudantil culminou num episódio conhecido como “ataque dos seios”, um protesto organizado por alunas de seios desnudos que interromperam a aula de Adorno. Embora a atuação do movimento estudantil alemão possa ser questionável sob vários aspectos nesse período, não é fortuito que o episódio tenha assumido a forma de um protesto de mulheres. Horkheimer nunca se interessou muito pelo tema e Marcuse tentou remediar essa ausência com o apoio ao movimento estudantil, ao feminismo e às lutas do Terceiro Mundo da década de 1960.

A ausência de pesquisadoras mulheres e feministas também cobrou um preço teórico na produção da Escola de Frankfurt. Os Estudos sobre autoridade e família, assim como as primeiras formulações do conceito de “indústria cultural”, estavam assentados na tese de que a família e o espaço privado haviam sido invadidos e, portanto, erodidos pela lógica de mercado e que, por isso, o pouco de liberdade que restava à formação da individualidade burguesa havia se encerrado. A ideia subjacente a essa era, em linhas gerais, a de que a família era o último refúgio contra o capitalismo – um tipo de premissa que o movimento feminista buscou desconstruir ao longo de sua história. Além disso, a erosão da autoridade paterna era vista como problemática. Numa carta a Horkheimer de 21 de março de 1936, Adorno criticava o ataque de Erich Fromm à autoridade, com a justificativa de que a vanguarda de Lênin, assim como a ditadura não poderiam ser pensadas sem esse conceito. Seria possível apontar mais uma série de questões teóricas, mas essas já são suficientes para demonstrar que uma atualização da teoria crítica precisa necessariamente passar por uma revisão feminista.

Em 1985, Nancy Fraser escreveu um texto que levantava a questão de gênero: “O que é crítico na teoria crítica?”. Fraser dialogava com outros desdobramentos do Instituto de Pesquisa social, já não marxistas e centrados nas obras de Jürgen Habermas e Axel Honneth. Atualmente, um número cada vez maior de mulheres se dedica à teoria crítica e aos estudos relativos à Escola de Frankfurt. Expoentes importantes como Susan Buck-Morss nos Estados Unidos, Rahel Jaeggi na Alemanha, bem como Bárbara Freitag, Olgária Matos e Jeanne Marie Gagnebin no Brasil, abriram caminho para gerações e gerações de mulheres que hoje se tornam especialistas nos autores e nos temas da teoria crítica, ainda que muitas dessas autoras não discutam feminismo e/ou não associem a teoria crítica ao marxismo. Apesar desses esforços, os ambientes permanecem dominados por homens. Mulheres – isso também vale para LGBTs e pessoas não brancas – que pretendem estudar teoria crítica enfrentam, assim, um dilema: como estudar uma teoria tão crítica, tão revolucionária, mas cuja face ao longo da história foi e permanece branca, masculina, heterossexual e europeia? Será que há algo imanente a essa teoria e que nos obrigaria a descartá-la ou seria possível se apropriar de sua força, sem deixar de reconhecer suas lacunas?

A teoria crítica da primeira geração da Escola de Frankfurt teria muito a oferecer para o debate feminista, ao mostrar, por exemplo, como a indústria cultural tem uma função e uma incidência diversa dependendo do gênero, da raça e da orientação sexual, podendo, assim, funcionar em diferentes níveis como instrumento de normalização, criando, por exemplo, “feminilidades” e “masculinidades” administradas. Ademais, seu debate a respeito da importância dos tabus sexuais para a reprodução da sociedade capitalista poderia servir para uma atualização da leitura dos processos de reprodução social no âmbito da subjetividade. As reflexões de Adorno a respeito do sofrimento como lugar de verdade poderiam ser associadas ao debate a respeito do “lugar de fala” – sobre a como a “vida danificada” se traduz também em formas de vida profundamente atravessadas pela desigualdade de gênero, pela raça e sexualidade e sobre como a experiência e as múltiplas expressões – estéticas e políticas – do sofrimento revelam, no âmbito do particular, a tendência opressiva e reificante do todo. O conceito de “dessublimação repressiva” de Marcuse seria igualmente um caminho interessante para pensar o caráter integrador de um feminismo neoliberal, por exemplo, assim como os estudos sobre a personalidade autoritária seriam capazes de auxiliar na compreensão da generificação do fascismo, um tema ainda sub-explorado.

Diversas vertentes do marxismo foram interpeladas pelo feminismo no último século. A teoria crítica, que esteve à frente de seu tempo em tantos aspectos, ficou para trás nesse. Está mais do que na hora de acertar as suas contas com o passado e com o presente, para que possa finalmente alcançar o século XXI.

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