amor e revolução

imagem: Wikipedia

Ana Flávia Bádue

Para lidar com a pandemia de covid-19, diversas organizações estão promovendo eventos online com acadêmicas e ativistas renomadas. A incubadora de movimentos sociais de Nova Iorque The People’s Forum recentemente convidou Jodi Dean para falar sobre Kollontai e o socialismo feminista. Jodi Dean é professora do departamento de Teoria Política de Hobart and William Smith Colleges, e possui uma extensa obra que reflete sobre quais formas de pertencimento e interações queremos para um futuro revolucionário. Dentro desse escopo, Dean aborda os escritos e o trabalho revolucionário de Kollontai, como uma inspiração e uma forma de “iluminar e refinar nossas análises e nosso posicionamento político”.

Um dos pontos fortes do vídeo é a discussão que a autora faz sobre o lugar do amor na obra de Kollontai. O amor burguês reduz o romance à esfera da família e ao casamento, além de transformar as pessoas implicadas no relacionamento em propriedade umas das outras. Kollontai defendia que, em uma sociedade revolucionária, haveria o desenvolvimento de “relações amorosas ancoradas em companheirismo e solidariedade”, em que as partes não mais se relacionariam com base em cálculos materiais, e nem estariam juntas por obrigação de reproduzir materialmente as condições da exploração capitalista. A moral coletiva deveria encorajar diversas formas de amor e de amizade entre as pessoas, e os encontros não deveriam ser limitados como o são no casamento burguês.

Por que repensar o amor nos oferece instrumentos para refinar nossos pensamentos, nossas lutas e nosso horizonte revolucionário? Para responder a essa pergunta, sugerimos um outro vídeo, também de Jodi Dean, no qual ela fala sobre seu novo livro Comrade, publicado em 2019 pela Verso Books. No livro, a autora faz uma discussão sobre os sentidos da subjetividade e do pertencimento político. Seu principal argumento é que a noção de camarada (tradução da palavra comrade) oferece um campo de sentidos verdadeiramente revolucionário pois garante, ao mesmo tempo, uma forma de organização política em que as partes são responsivas e responsáveis pela coletividade, e uma forma não-burguesa de experienciar a vida coletiva.

Alexandra Kollontai, no início do século XX, propunha que a subordinação das mulheres estava ancorada nas condições econômicas, assim como o amor, as formas afetivas e as relações interpessoais. Dessa maneira, os dois vídeos nos mostram como Dean, ao construir um diálogo entre as reflexões sobre gênero e reprodução social do passado, se propõe a pensar o presente. Ao focar nos modos pertencimento coletivo em mobilizações políticas e movimentos sociais, Dean nos lembra que a luta por uma existência não mercantilizada passa por elaborarmos novas formas de inter-relacionamento e de cuidado que não dependam de agrupamentos burgueses para existir. A reprodução não deve, portanto, ser mantida tal como está posta ou apenas dividida igualmente entre membros de uma família, nem devemos apenas exigir remuneração pelo trabalho doméstico se este se mantiver inalterado. Questionar a reprodução social é ir além de desafogar as mulheres de suas tarefas domésticas ou do trabalho afetivo realizado no interior da família. Com Kollontai, Dean nos faz pensar que no capitalismo, o amor e o cuidado são circunscritos à esfera doméstica e à unidade familiar, as quais, por sua vez, são instituições atreladas ao modo de produção de mercadorias. Lutar por um socialismo feminista, como fizera Kollontai e como sugere Dean, é lutar também por outras formas de amor, de cuidado, de amizades, de pertencimento ao corpo social e, portanto, significa lutar por outra sociedade.

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