feminismo, capitalismo e transformação social

foto de  Taylor Barber no Unsplash

Este programa foi orginalmente desenhado pelas professoras Nancy Fraser e Johanna Oksala para um curso oferecido na New School of Social Research, em Nova York, em 2015.

Nota-se que a versão abaixo tem algumas modificações em relação ao original: as datas das aulas foram retiradas, assim como textos com tradução para o português foram indicados com o título disponível no Brasil. Os textos que não estão em português, mas estão disponíveis na Internet, estão acompanhados dos respectivos links de acesso.

O original está disponível aqui e a versão abaixo foi traduzida e adaptada por Ana Flávia Bádue.

Boa leitura!


Feminismo, Capitalismo e Transformação Social
por Nancy Fraser e Johanna Oksala

Atualmente, teóricas feministas estão cada vez mais retornando à ideia de que a “sociedade capitalista” deve constituir o arcabouço crítico a partir do qual podemos compreender as formas contemporâneas de subordinação das mulheres e as lutas feministas para superá-las. Esse interesse renovado na conexão entre feminismo e capitalismo levanta uma série de questões difíceis a respeito do capitalismo, do socialismo como alternativa, dos desafios feministas presentes em ambos, e como ambos desafiam o feminismo.

O que é capitalismo? Podemos conceber capitalismo ignorando gênero ou seria a organização social capitalista inerentemente androcêntrica, incapaz de concretizar relações de gênero igualitárias? Como podemos caracterizar as assimetrias de gênero historicamente constituídas em sociedades capitalistas? Como as assimetrias de gênero capitalistas se relacionam a outras formas características de dominação, tais como exploração de classe, predação imperialista, dominação racial e étnica, e devastação ecológica? Que tipos de desafios tais intersecções colocam às lutas feministas em contextos capitalistas? Como movimentos feministas responderam a esses desafios ao longo da história?

Feminismo e socialismo estão naturalmente relacionados? Como essa relação se construiu ao longo da história? As teorias socialistas-feministas centradas na organização social do trabalho conseguem fazer justiça às assimetrias de gênero relativas a sexualidade, status e psíquicas?

Por fim, como esses problemas aparecem hoje? Quais as formas específicas que assimetrias de gênero e lutas feministas assumem em sociedades onde o capitalismo é financeirizado, globalizado e neoliberal? Em que medida as condições contemporâneas requerem uma revisão de teorias clássicas que visaram explicar as relações entre feminismo, capitalismo, socialismo e transformação social?

Este curso foi organizado para levantar algumas importante tentativas, tanto clássicas quanto contemporâneas, de responder a essas questões. Também almejamos que, ao trabalhar através dos insights e omissões de diversas autoras, possamos desenvolver, nós mesmas, algumas respostas.

1. Marx

Marx, Karl, e Friedrich Engels. 1998. Manifesto comunista. Traduzido por Osvaldo Coggiola. Sao Paulo: Boitempo.

Marx, Karl. 1984. O Capital – vol. 1. Livro Primeiro. Os Economistas. São Paulo: Abril Cultural.

Brown, Heather. 2013. “Political Economy, Gender, and the ‘Transformation’ of the Family”. In: Marx on Gender and the Family: A Critical Study. Chicago, IL; Minneapolis, MN: Haymarket Books.

2. Engels

Engels, Friedrich. 2019. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Traduzido por Nélio Schneider. Sao Paulo: Boitempo.

Brown, Heather. 2013. “Patriarchy, Women’s Oppression and Resistance: Comparing Marx and Engels on Gender and the Family in Precapitalist Societies”. In: Marx on Gender and the Family: A Critical Study. Chicago, IL; Minneapolis, MN: Haymarket Books.

Beauvoir, Simone de. 2009. “O ponto de vista do materialismo histórico”. In O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Gould, Carol C. 1999. “Engel’s Origins: A Feminist Critique”. In Engels after Marx, organizado por Manfred B. Steger e Terrell Carver. University Park, Pa: Pennsylvania State University Press.

Vogel, Lise. 1983. “Engels: A Defective Formulation”. In: Marxism and the oppression of women : toward a unitary theory. Rutgers University Press.

Carver, Terrell. 2009. “Marxism and Feminism: Living with Your Ex”. In Karl Marx and Contemporary Philosophy, organizado por Andrew Chitty e Martin McIvor. Basingstoke: Palgrave Macmillan.

3. Feminismo, Comunismo, Anarquismo: Ligações Perigosas?

Kollontai, Alexandra. 1911. “As Relações entre os Sexos e a Luta de Classes”. Traduzido por Maria Luiza Oliveira.

Kollontai, Alexandra. 1920. “O Comunismo e a Família”. Traduzido por Carlos Henrique.

Kollontai, Alexandra. 1923. “Abram Caminho Para o Eros Alado! (Uma Carta à Juventude Trabalhadora)”. Traduzido por Luciana Baêta.

Pankhurst, Sylvia. 1920. “A Constitution for British Soviets. Points for a Communist Programme”. Libcom.Org.

Pankhurst, Sylvia. 1920. “Co-Operative Housekeeping”. Libcom.Org.

Pankhurst, Sylvia. 1923. “Women Members of Parliament”. Libcom.Org.

Goldman, Emma. 1911. “Casamento e Amor”. Traduzido por José Paulo Maldonado de Souza.

Goldman, Emma. 2011. “Tráfico de mulheres”. Traduzido por Mariza Corrêa. Cadernos Pagu, no 37.

Goldman, Emma. 1896. “Anarchy and the Sex Question”.

4. Sexo, família e a segunda onda: com ou contra o Marxismo?

Firestone, Shulamith. 2003. “The Dialectic of Sex” e “The Ultimate Revolution: Demands and Speculations”. In: The Dialectic of Sex: The Case for Feminist Revolution. New York: Farrar, Straus and Giroux.

Mitchell, Juliet. 2006. “Mulheres: a Revolução Mais Longa”. Traduzido por Rodolfo Konder. Revista de Gênero 6 (2): 203–32. Disponível em Marxismo21.

Zaretsky, Eli. 1986. Capitalism, the family, and personal life. New York: Perennial Library.

MacKinnon, Catharine A. 1982. “Feminism, Marxism, Method, and the State: An Agenda for Theory”. Signs 7 (3): 515–44.

Nicholson, Linda. 1997. “Feminismo e Marx: Integrando o parentesco com o econômico”. In Feminismo como crítica da modernidade, organizado por Seyla Benhabib e Drucilla Cornell. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.

Power, Nina. 2010. “Toward a cybernetic communism: the technology of the anti-family”. In Further adventures of The dialectic of sex: critical essays on Shulamith Firestone, organizado por Mandy Merck e Stella Sandford. New York: Palgrave Macmillan.

5. Marxismo Feminista, trabalho doméstico e Teoria Dual de Sistemas

Arruzza, Cinzia. 2015. “Considerações sobre gênero: reabrindo o debate sobre patriarcado e/ou capitalismo”. Traduzido por Camila Massaro de Góes. Revista Outubro, no 23.

Benston, Margaret. 1997. “The Political Economy of Women’s Liberation”. In Materialist Feminism: A Reader in Class, Difference, and Women’s Lives, organizado por Rosemary Hennessy e Chrys Ingraham. London: Routledge.

Dalla Costa, Mariarosa, e Selma James. 1997. “Women and the Subversion of Community”. In Materialist Feminism: A Reader in Class, Difference, and Women’s Lives, organizado por Rosemary Hennessy e Chrys Ingraham. London: Routledge. Versão traduzida disponível aqui.

Hartmann, Heidi I. 2016. “The Unhappy Marriage of Marxism and Feminism: Towards a More Progressive Union”. Capital & Class 3 (2).

Joseph, Gloria. 1997. “The Incompatible Menage à Trois: Marxism, Feminism and Racism”. In Materialist Feminism: A Reader in Class, Difference, and Women’s Lives, organizado por Rosemary Hennessy e Chrys Ingraham. London: Routledge. 

Young, Iris Marion. 1997. “Socialist Feminism and the Limits of Dual Systems Theory”. In Materialist Feminism: A Reader in Class, Difference, and Women’s Lives, organizado por Rosemary Hennessy e Chrys Ingraham. London: Routledge.

Davis, Angela. 2016. “A obsolescência das tarefas domésticas se aproxima: uma perspectiva da classe trabalhadora”. In Mulheres, raça e classe, traduzido por Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo.

Fraser, Nancy. 2002. “Políticas feministas na era do reconhecimento: uma abordagem bidimensional da justiça de gênero”. In Gênero, Democracia E Sociedade Brasileira, organizado por Maria Cristina Bruschini e Sandra G Unbehaum. São Paulo, SP, Brasil: Editora 34.

6. Interseccionalidade: raça, classe e gênero

Davis, Angela. 1972. “Reflections on the Black Woman’s Role in the Community of Slaves”. The Massachusetts Review 13 (1/2): 81–100.

Brewer, Rose. 1997. “Theorizing Race, Class and Gender: The New Scholarsphip of Black Feminist Intellectuals and Black Women’s Labor”. In Materialist Feminism: A Reader in Class, Difference, and Women’s Lives, organizado por Rosemary Hennessy e Chrys Ingraham. London: Routledge.

King, Deborah K. 1988. “Multiple Jeopardy, Multiple Consciousness: The Context of a Black Feminist Ideology”. Signs 14 (1): 42–72.

Sacks, Karen Brodkin. 1989. “Toward a Unified Theory of Class, Race, and Gender”. American Ethnologist 16 (3): 534–50.

Fraser, Nancy, e Linda Gordon. 2013. “A Genealogy of ‘Dependency’: Tracing a Keyword of the US Welfare State”. In Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis, por Nancy Fraser. New York: Verso.

Brenner, Johanna. 2002. “Intersections, Locations, and Capitalist Class Relations: Intersectionality from a Marxist Perspective”. In The Socialist Feminist Project: A Contemporary Reader in Theory and Politics, organizado por Nancy Holmstrom. New York: Monthly Review Press.

7. Reprodução Social

Ferguson, Susan, e David McNally. 2017. “Capital, força de trabalho e relações de gênero”. Traduzido por Maíra Silva. Revista Outubro, no 29.

Vogel, Lise. 1983. “The reproduction of labor power”. In Marxism and the oppression of women : toward a unitary theory. New Brunswick: Rutgers University Press.

Glenn, Evelyn Nakano. 1992. “From Servitude to Service Work: Historical Continuities in the Racial Division of Paid Reproductive Labor”. Signs 18 (1): 1–43.

Folbre, Nancy, e Julie A. Nelson. 2000. “For Love or Money—Or Both?” Journal of Economic Perspectives 14 (4): 123–40.

Fraser, Nancy. 2013. “After the Family Wage: A Postindustrial Thought Experiment”. In Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis, por Nancy Fraser. New York: Verso.

Katz, Cindy. 2019. “Capitalismo vagabundo e a necessidade da reprodução social – Cindi Katz”. Traduzido por Gilberto Cunha Franca e Valeria Fontes. GEOUSP Espaço e Tempo 23 (2): 435–52.

Arruzza, Cinzia. 2017. “Funcionalista, determinista e reducionista: o feminismo da reprodução social e seus críticos”. Traduzido por Murillo van der Laan. Cadernos Cemarx, n. 10.

8. Acumulação primitiva, imperialismo e a divisão internacional do trabalho

Mies, Maria. 2002. ““Colonization and Housewifization”. In The Socialist Feminist Project: A Contemporary Reader in Theory and Politics, organizado por Nancy Holmstrom. New York: Monthly Review Press.

Young, Brigitte. 2001. “The ‘Mistress’ and the ‘Maid’ in the Globalized Economy”. Socialist Register 37: 315–27.

Hochschild, Arlie Russell. 2004. “Love and Gold”. In Global Woman: Nannies, Maids, and Sex Workers in the New Economy, organizado por Barbara Ehrenreich e Arlie Russell Hochschild, 1st edition. New York, NY: Holt Paperbacks.

Sassen, Saskia. 2000. “Women’s Burden: Counter-geographies of Globalization and the Feminization of Survival”. Journal of International Affairs 53 (2): 503–24.

Keating, Christine, Claire Rasmussen, e Pooja Rishi. 2010. “The Rationality of Empowerment: Microcredit, Accumulation by Dispossession, and the Gendered Economy”. Signs 36 (1): 153–76.

Bair, Jennifer. 2010. “On Difference and Capital: Gender and the Globalization of Production”. Signs 36 (1): 203–26.

9. Capitalismo, desejo, sexualidade

Butler, Judith. 2016. “Meramente cultural”. Traduzido por Aléxia Bretas. Ideias 7 (2): 227–48.

Fraser, Nancy. “Heterosexism, Misrecognition and Capitalism: A Response to Judith Butler”. In Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis, por Nancy Fraser. New York: Verso.

Floyd, Kevin. 2009. “Introduction: On Capital, Sexuality, and the Situations of Knowledge” e “Notes on a Queer horizon: David Wojnarowicz and the violence of neoliberalism”. In The Reification of Desire: Toward a Queer Marxism, First Printed edition. Minneapolis: Univ Of Minnesota Press.

Hennessy, Rosemary. 2017. “The Material of Sex”. In Profit and Pleasure. New York: Routledge.

10. Trabalho afetivo

Hardt, Michael, e Antonio Negri. 2016. “Parte 3. Capital (e as lutas pelo bem-estar comum”. In:Bem-estar comum. São Paulo: Record.

Hardt, Michael. 1999. “Affective Labor”. boundary 2 26 (2): 89–100.

Weeks, Kathi. 2007. “Life Within and Against Work: Affective Labor, Feminist Critique, and Post-Fordist Politics”. ephemera 7 (1): 233–49.

Weeks, Kathi. 2011. “Working Demands: From Wages for Housework to Basic Income” e “’Hours for What We Will’: Work, Family, and the Demand for Shorter Hours”. In: The problem with work: feminism, Marxism, antiwork politics, and postwork imaginaries. Durham: Duke University Press.

Hochschild, Arlie. 1983. “Feeling Management” In: The managed heart: commercialization of human feeling. Berkeley: University of California Press.

Oksala, Johanna. 2016. “Affective Labor and Feminist Politics”. Signs: Journal of Women in Culture and Society 41 (2): 281–303. 

Uhde, Zuzana. 2016. “From Women’s Struggles to Distorted Emancipation: THE INTERPLAY OF CARE PRACTICES AND GLOBAL CAPITALISM”. International Feminist Journal of Politics 18 (3): 390–408.

11. Neoliberalismo, Financeirização e a reconstrução da ordem de gênero

Elson, Diane. 2013. “Economic Crisis from the 1980s to the 2010s: A Gender Analysis”. In New frontiers in feminist political economy, organizado por Shirin Rai e Georgina Waylen. London; New York: Routledge, Taylor & Francis Group.

Benería, Lourdes. 2014. “Neoliberalism and the Global Economic Crisis: A View from Feminist Economics”. In Under Development: Gender, organizado por Christine Verschuur, Isabelle Guérin, e Hélène Guétat-Bernard, 257–85. London: Palgrave Macmillan UK.

LeBaron, Genevieve. 2010. “The political economy of the household: Neoliberal restructuring, enclosures, and daily life”. Review of International Political Economy 17 (5): 889–912.

Roberts, Adrienne. 2013. “Financing Social Reproduction: The Gendered Relations of Debt and Mortgage Finance in Twenty-First-Century America”. New Political Economy 18 (1): 21–42.

Oksala, Johanna. 2011. “The neoliberal subject of feminism”. Journal of the British Society for Phenomenology 42 (1): 104–20. Uma versão compilada desse artigo está disponível aqui.

Fraser, Nancy. “Feminism, Capitalism and the Cunning of History”. In Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis, por Nancy Fraser. New York: Verso.

12. Feminismo do século 21 contra o capitalismo?

Fraser, Nancy. 2015. “Por trás do laboratório secreto de Marx – por uma concepção expandida do capitalismo/Marx’s hidden abode – For an Expanded Conception of Capitalism, de Nancy Fraser”. Traduzido por Mayra Cotta e Miguel Patriota. Revista Direito e Práxis 6 (1): 703–28.

Kirk, Gwyn. 1997. “Standing on Solid Ground: A Materialist Ecological Feminism”. In Materialist Feminism: A Reader in Class, Difference, and Women’s Lives, organizado por Rosemary Hennessy e Chrys Ingraham. London: Routledge.

Nanda, Meera. 1997. “History is What Hurts: A Materialist Feminist Perspective on the Green Revolution and its Ecofeminist Critics”. In Materialist Feminism: A Reader in Class, Difference, and Women’s Lives, organizado por Rosemary Hennessy e Chrys Ingraham. London: Routledge.

Fraser, Nancy. 2013. “Between Marketization and Social Protection: Resolving the Feminist Ambivalence”. In Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis, por Nancy Fraser. New York: Verso.

Brenner, Johanna. 2014. “21st Century Socialist-Feminism”. Socialist Studies/Études Socialistes 10 (1).

Oksala, Johanna. 2013. “Feminism and Neoliberal Governmentality”. Foucault Studies, no 16: 32–53.

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