as guerrilheiras

imagem: editora Ubu.

As guerrilheiras, de Monique Wittig

Andrea Azevedo

“As lésbicas não são mulheres” é a provocativa frase de Wittig – teórica, escritora e tradutora francesa que atuou no Movimento Francês de Libertação das Mulheres em maio de 1968 – em seu famoso ensaio “Não se nasce mulher”. Lésbica-materialista, Wittig é considerada uma das precursoras da Teoria Queer por tensionar a categoria mulher como categoria da luta feminista, uma vez que esta exercia o papel de mistificar o feminino e naturalizar o gênero e a divisão binária do mundo. Como materialista, Wittig preocupava-se com as construção material das desigualdades, e como feminista, defendia que a construção simbólica seria também uma força material.

Apesar dos seus ensaios brilhantes, indico aqui o seu romance As guerrilheiras que também poderia ser tomado como um manual poético e crítico às ideias essencialistas sobre a mulher e a natureza que, por vezes, são exaltadas na luta feminista. 

Neste romance utópico, Wittig escapa à forma tradicional de um romance e da linguagem, criando tanto um desconforto em sua leitura dada na composição fragmentada, na ausência cronológica, na suspensão dos critérios semânticos, com uso de estruturas poéticas, desenhando uma história que intenta ser livre de qualquer forma universal. Nesse sentido, esta obra literária busca ser uma ferramenta de disputa com as concepções universais, masculinas ou naturalistas que também eram motivos de luta em sua teoria.

As cenas fragmentadas do romance, entrecortadas sempre por uma listagem de nomes supostamente femininos e sem demarcação de gênero, nos apresentam uma comunidade de mulheres, guerreiras, em liberdade, que constrõem uma vivência de concepções próprias, agindo em relação livre tanto com a natureza quanto com as invenções e artefatos técnicos. Sempre tensionando em relação à sacralização do corpo feminino ou a exaltação de seus símbolos como o útero, a vulva, o clitóris, a narrativa ainda conduz essas guerrilheiras à batalha contra o patriarcado, uma luta que se dá pelas armas da ironia e que também destrói a falsa aliança entre a natureza e os corpos femininos.

O breve trecho que cito oferece um breve mergulho nas reflexões de Wittig que merecem ser lidas:

“Elas dizem que, tendo chegado até aqui, devem examinar o princípio que as guiou. Elas dizem que não precisam extrair dos símbolos a sua força. Dizem que, de agora em diante, o que elas são não pode ser mais comprometido e que, para isso, é preciso parar de exaltar as vulvas. Dizem que devem romper o último vínculo que as associa a uma cultura morta. Dizem que todo símbolo que exalta o corpo fragmentado é temporário e deve desaparecer. Foi assim em outros tempos. Elas avançam, corpos íntegros por princípio, caminhando juntas por um outro mundo” (Wittig, 2019, p. 65).

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