Resenha de The Resisting Reader: a feminist approach to American fiction, de Judith Fetterley

Larissa Vannucci
“Literatura é política. E é doloroso ter de insistir nesse fato, mas a necessidade da insistência indica as dimensões do problema.”
The resisting reader: a feminist approach to American fiction, Judith Fetterley
Publicado em 1978, The resisting reader: a feminist approach to American fiction1 (“A leitora que resiste: uma abordagem feminista da ficção estadunidense” em uma tradução livre), começou como um curso que a autora e professora, Judith Fetterley, ministrava na Universidade da Pensilvânia intitulado Images of Women in American Literature (Imagens de mulheres na literatura estadunidense). De acordo com Fetterley, ela pedia aos estudantes que fizessem anotações sobre suas impressões em relação aos livros de literatura que estavam lendo ao longo do curso, além de anotações sobre os debates que ocorriam em sala de aula. Ao final do curso, todos trocavam suas anotações e, a partir delas, Fetterley deu início ao projeto que resultou em seu livro.
Logo no prefácio, Fetterley pontua: “A crítica literária feminista é um fenômeno crescente, mutável e em constante autotransformação, caracterizado pela resistência em codificar e a recusa em ser rigidamente definida ou de ter seus parâmetros prematuramente estabelecidos”. Esse fenômeno em crescimento e sem características muito bem estabelecidas se deve ao clima social de intensa agitação nos Estados Unidos no período de publicação do livro. Começando pelo Movimento pelos Direitos Civis em meados dos anos 1950, seguido pela chamada “segunda onda” do movimento feminista a partir dos anos 1960 e o alvoroço causado pela publicação de A mística feminina de Betty Friedan.
“Para todas as novas mulheres e todos os novos homens2.” Essa é a dedicatória de Friedan em seu livro publicado em 1963 com a proposta de investigar a construção dos papeis sociais de gênero e da opressão das mulheres (brancas e de classe média, é importante frisar) na sociedade de consumo dos Estados Unidos. É, portanto, para esses novos leitores que estão sendo formados que surge a reivindicação de uma forma diferente, mais abrangente e complexa de ler literatura. Nasce, dentro do ambiente acadêmico, a crítica literária feminista. Reforço a natureza específica desse ambiente de “nascimento” porque, desde o início do século XX, já havia publicações interessadas em pensar o papel das mulheres na literatura como personagens e autoras e, também, publicações interessadas em refletir sobre os desencontros entre as representações literárias e a vida prática e real das mulheres. Alguns ensaios de Virginia Woolf poderiam ser citados como exemplo, o célebre Um quarto só seu3 já seria um excelente ponto de partida. Assim como o ensaio A Nova Mulher na literatura4 de Alexandra Kollontai. Para Fetterley, ler dessa perspectiva crítica trata-se de “um ato político cujo objetivo não é somente interpretar o mundo, mas mudá-lo mudando a consciência daqueles que leem e sua relação com o que leem.”
O livro de Fetterley apresenta essa perspectiva teórica de análise literária ainda recente no meio acadêmico e propõe análises de quatro contos e quatro romances5 de autores renomados da literatura estadunidense. Aqui, pretendo examinar apenas o prefácio e a introdução de seu livro, ou seja, sua perspectiva teórica e suas contribuições para a crítica literária. Logo na introdução, intitulada, On the Politics of Literature (Sobre a política da literatura), a autora afirma que a literatura canônica estadunidense segue um modelo literário excludente, impalpável para a consciência feminina e pretensamente universal, partindo do que ela considera uma postura apolítica e reforça: “[q]uando apenas uma realidade é incentivada, legitimada e transmitida e quando essa visão limitada insiste incessantemente em sua abrangência, então temos as condições necessárias para a confusão de consciência na qual a impalpabilidade floresce.” Em outras palavras, ser universal é ser homem. Para ela, a questão do poder na política da literatura reverbera em outras políticas também. Ser excluído da literatura que reivindica definir a experiência subjetiva de um indivíduo é experienciar uma impotência peculiar, não apenas aquela que deriva de não se ver representado e legitimado nas artes, mas também de estar em constante conflito com sua própria subjetividade. A experiência de mulheres como leitoras seria, portanto, de constante impotência.
Fetterley alerta: “Consciência é poder.” E, nas palavras da autora, criar uma nova compreensão da literatura estadunidense é tornar possível um novo efeito da literatura no público leitor, principalmente, na parcela composta por mulheres. E, para isso, é necessário criar condições para transformar a cultura refletida pela literatura. Em sua compreensão, a crítica feminista fornece as ferramentas necessárias para questionar e expor ideias e mitos relacionados a feminilidade e masculinidade. A pergunta que deve ser feita é “quem se beneficia e de que forma?” desse efeito causado pelo texto literário e, dessa forma, podemos compreender mais profundamente a função da política sexual na literatura. Essa função pode ser mais bem percebida pelo efeito causado: “Como leitoras, professoras e acadêmicas, as mulheres são ensinadas a pensar como homens, a se identificar com um ponto de vista masculino e a aceitar como normal e legítimo um sistema masculino de valores, cujo princípio central é a misoginia.”
Faz-se necessário uma mudança de postura: as leitoras precisam assumir uma posição de resistência em relação ao texto literário. Nas palavras de Fetterley:
Claramente, então, o primeiro ato da crítica feminista deve ser o de se tornar uma leitora que resiste, e não uma leitora que concorda, e, por meio dessa recusa em concordar, iniciar o processo de exorcizar a mente masculina que foi implantada em nós. A consequência desse exorcismo é a capacidade para o que Adrienne Rich descreve como re-visão – “o ato de olhar para trás, de ver com novos olhos, de entrar em um texto antigo a partir de uma nova direção crítica”. E a consequência, por sua vez, dessa re-visão é que os livros não serão mais lidos como foram lidos e, portanto, perderão seu poder de nos prender inconscientemente a seus projetos. Embora as mulheres obviamente não possam reescrever obras literárias para que elas se tornem nossas em virtude de refletirem nossa realidade, podemos nomear com precisão a realidade que elas refletem e, assim, mudar a crítica literária de uma conversa fechada para um diálogo ativo.
A proposta da crítica literária feminista apresentada por Fetterley é, por consequência, que as novas mulheres recuperem e/ou descubram suas próprias vozes a partir de um posicionamento mais questionador e resistente diante do texto literário, observando o que é narrado, como é narrado e por quem é narrado. E, mais ainda, quem se beneficia dessa construção literária e do efeito causado por ela. Em suma, observar de forma atenta aquilo que o texto provoca (pena, repulsa, compaixão, entre outros) e por quais personagens, compreender mais afundo qual o mecanismo que opera em cada enredo de forma a abrir novas e mais complexas interpretações, proporcionando uma outra consciência sobre o texto literário e, dessa maneira, estabelecer novos diálogos críticos.
1 FETTERLEY, Judith. The Resisting Reader: a Feminist Approach to American Fiction. Bloomington: Indiana University Press, 1978.
2 FRIEDAN, Betty. A mística feminina. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020.
3 WOOLF, Virginia. Um quarto só seu. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
4 KOLLONTAI, Alexandra. A nova mulher e a moral sexual. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
5 No livro de Fetterley, são analisados os contos: “Rip Van Winkle” de Washington Irving; “I Want to Know Why” de Sherwood Anderson; “The Birthmark” de Nathaniel Hawthorne; e “A Rose for Emily” de William Faulkner. E os romances A Farewell to Arms, de Ernest Hemingway; The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald; The Bostonians, de Henry James; e An American Dream, de Norman Mailer.


Ótimo artigo. Os estudos literários sobre feminismo, ou crítica literária feminista, estão muito avançados, de fato e progridem cada vez mais, principalmente com a análise mais psicanalítica da escrita e de sua função filosófica – tanto a estética, quanto a ética. Vale lembrar não apenas a crítica literária feminista mais consolidada desde Virginia Woolf e Alexandra Kollontai, mas também a nova perspectiva da crítica literária feminista-vegana de Carol J. Adams.
Inclusive, aproveitamos para convidar a todas(os): em breve, teremos cursos de aprofundamento teórico na obra de Virginia Woolf e um especial sobre a escrita e o pensamento feminista e socialista da escritora francesa George Sand.
Atenciosamente,
A Equipe da Escola Feminista.
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